Repare na cena. Uma das maiores casas de pesquisa corporativa do planeta, que durante décadas vendeu relatórios caríssimos baseados em entrevistas, planilhas e o famoso jargão consultivo, anuncia que agora despeja todo esse acervo dentro de um agente de inteligência artificial plugado no Microsoft 365 Copilot. Ou seja, o cliente que já pagava caro pelo PDF de cinquenta páginas vai pagar de novo, em formato de assinatura mensal, para conversar com a versão estatística daquele mesmo PDF. O produto é o mesmo. A margem é que ficou melhor.

E o arranjo é elegante para quem está dentro dele. A Forrester vende o cérebro, a Microsoft aluga o corpo, e o cliente corporativo, anestesiado por orçamento de TI que ninguém audita direito, paga pelos dois. Quer dizer, monta-se um pedágio em cima de algo que antigamente o sujeito resolvia com leitura, conversa de corredor e dois neurônios funcionando. Agora delega-se ao oráculo de silício, e o oráculo cobra mensalidade. Sempre que você vê duas gigantes assinando parceria estratégica com sorriso largo no palco, lembre-se que a fatura está saindo do seu bolso por algum caminho indireto.

Há também aquela parte que o anúncio não menciona, porque seria desagradável dizer em voz alta. Quando você pergunta ao agente quantos concorrentes seus já adotaram tal tecnologia, qual o sentimento do mercado, qual a melhor estratégia de entrada em determinado segmento, você está entregando, em tempo real, o mapa completo das suas dúvidas estratégicas para uma plataforma que, por design, aprende com tudo que passa por ela. O cliente acha que está consultando. Está, na verdade, sendo consultado. A diferença entre os dois verbos custa caro e ninguém avisa.

O fenômeno é antigo, só mudou de roupa. No século XIX, vendia-se enciclopédia de porta em porta para a família que queria parecer culta sem ler livro. No século XX, vendiam-se MBAs para o executivo que queria parecer estratégico sem pensar. Agora vende-se agente de IA para o gestor que quer parecer atualizado sem decidir nada. A cada geração, o mesmo desejo profundamente humano de terceirizar a responsabilidade pelo próprio juízo, e a cada geração alguém percebe a oportunidade de cobrar caro por essa terceirização. O nome da tecnologia muda, o vício permanece intacto.

O detalhe sinistro é o efeito sobre quem vai usar. Quando todo executivo da Fortune 500 conversa com o mesmo agente, alimentado pela mesma base, treinado pelos mesmos vieses, calibrado pelas mesmas premissas, o resultado natural é convergência de pensamento em escala industrial. Todos chegando às mesmas conclusões, recomendando as mesmas reestruturações, errando os mesmos erros simultaneamente. É a homogeneização do julgamento empresarial vendida como sofisticação. E quando todo mundo pensa igual, a próxima crise não vai ser localizada, vai ser sistêmica, porque o sistema inteiro acreditou no mesmo oráculo.

Existe ainda a questão moral, que ninguém quer encarar de frente. Pagar para uma máquina pensar por você não é progresso, é atrofia voluntária. Cada decisão delegada é um músculo intelectual que não se exercita mais. Daqui a dez anos, quando o agente cair, quando o contrato encarecer, quando a base de dados estiver capturada por interesses políticos do fornecedor, vai sobrar uma geração inteira de gestores que não sabe mais ler um balanço sem pedir resumo. A servidão não chega de tanque, chega de assinatura mensal renovada automaticamente no cartão corporativo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.