Olha que coisa interessante. Uma empresa americana compra outra empresa americana por quatro milhões e seiscentos mil dólares, instala-se no Texas, contrata gente, paga aluguel, gera fluxo de caixa, e a notícia passa quase despercebida porque, naquele canto do mundo, capital privado movimentando-se é tão banal quanto chuva no inverno. O Texas, aliás, não é acidente geográfico nesta história. É o estado que entendeu, há décadas, que a melhor política industrial é não ter política industrial, e que o melhor incentivo ao empresário é tirar o pé do pescoço dele.

Quer dizer, enquanto Austin e Houston competem para atrair quem produz, nossas capitais competem para atrair quem fiscaliza. A diferença de filosofia é abissal. Lá, o pressuposto é que o sujeito que arrisca o próprio dinheiro sabe melhor do que o burocrata o que fazer com ele. Aqui, o pressuposto é o oposto: o empreendedor é suspeito até prova em contrário, e a prova em contrário envolve quinze certidões negativas, uma vistoria sanitária, três alvarás municipais e uma reza brava para o fiscal estar de bom humor no dia.

Me diz uma coisa, por que uma rede de restaurantes consegue executar uma aquisição milionária sem que dezenas de comissões parlamentares queiram opinar? Porque a propriedade privada, naquela tradição jurídica, ainda significa alguma coisa. O dono compra, o dono vende, o dono erra, o dono acerta, e o resultado, lucro ou prejuízo, é dele. Nada de socializar perdas via Tesouro Nacional, nada de comissão de notáveis decidindo se o cardápio atende aos objetivos do desenvolvimento sustentável. Operação privada com risco privado e consequência privada. Conceito quase exótico para quem vive sob o paternalismo tropical.

E aqui entra o detalhe que ninguém comenta, mas que move a engrenagem toda. Aquisições deste porte só acontecem com fluidez quando o ambiente de negócios permite que o preço do ativo reflita, com razoável honestidade, o valor que o comprador enxerga nele. Quando o Estado entra distorcendo tudo, com subsídio aqui, tabelamento ali, taxa de juros artificialmente comprimida acolá, ninguém mais sabe quanto vale coisa nenhuma. O cálculo econômico vira chute. O empresário vira apostador. E o consumidor, no fim da fila, paga o preço do circo com inflação, fila e desabastecimento.

O contraste fica ainda mais cruel quando lembramos que, por estas bandas, abrir um restaurante envolve enfrentar uma muralha regulatória que nasceu, cada tijolo dela, com a justificativa de proteger o consumidor, o trabalhador, a saúde pública, o meio ambiente, a moralidade dos costumes e, suponho, a paz mundial. O resultado prático, todos vemos: quem tinha capital pequeno desistiu, quem tinha capital médio terceirizou para o Uber Eats, e quem tinha capital grande virou refém do despachante. A muralha não protegeu ninguém. Apenas garantiu que o monopólio sobrevivesse com pintura nova.

O recado da operação texana é simples, embora indigesto para os economistas de planilha colorida. Riqueza não brota de planejamento central, brota de gente livre trocando bens e serviços sob regras estáveis e claras. Toda vez que um país entende isto, prospera. Toda vez que esquece, empobrece com voz de locutor anunciando que desta vez vai dar certo. Não vai dar certo. Nunca deu. Nunca dará.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.