A manchete é dessas que enchem os olhos do leitor distraído. Terminal 3 inaugurado em Frankfurt, EBITDA do primeiro trimestre subindo 10%, números bonitos, fotos de fachada cintilante, executivos sorrindo para a câmera com aquele ar de quem acabou de domar a gravidade. O problema começa quando você abre o capô da Fraport e descobre que o motor que move essa "empresa" não é exatamente o que o noticiário econômico sugere. O Estado de Hesse detém uma fatia robusta, a cidade de Frankfurt outra, e o que sobra de capital privado convive numa estrutura onde o risco real é socializado e o lucro contábil é privatizado em forma de bônus para a diretoria. Chamar isso de vitória do capitalismo é o mesmo que chamar funcionário público de empreendedor por ter aberto a janela do escritório.

O Terminal 3 custou na faixa dos 4 bilhões de euros, número que a imprensa repete com a naturalidade de quem fala do preço do pão. Ninguém pergunta de onde veio essa montanha de dinheiro. Veio de financiamento bancário garantido pela presença estatal no acionariado, veio de tarifas aeroportuárias que são reguladas pelo próprio governo que é dono do negócio, veio da certeza confortável de que, se algo der errado, o contribuinte alemão entra no cheque especial. É o tipo de obra que só consegue ser tocada por quem tem aval do Estado, justamente porque nenhum capitalista que arrisque o próprio dinheiro entraria num projeto com retorno tão diluído no tempo e tão dependente de variáveis políticas.

E aí vem o EBITDA crescendo 10%, sustentado por aumento de tráfego e por reajuste de tarifas. Reajuste de tarifa em monopólio regulado é a coisa mais fácil do mundo de defender no relatório trimestral. Você não tem concorrente, o passageiro não pode escolher embarcar no aeroporto da esquina, a companhia aérea repassa o custo no preço da passagem, e no fim das contas quem paga a festa é o turista, o executivo em viagem, a família indo visitar parente. O lucro operacional vira mágica de planilha enquanto a fatura é fragmentada em milhões de bilhetes que ninguém percebe ter ficado mais caros. É o tipo de arranjo que dura décadas porque é desenhado para ser invisível.

Há ainda o teatro reputacional do "investimento sustentável", "infraestrutura de classe mundial", "preparação para o futuro". Tudo isso é figura de linguagem para justificar o que, na prática, é capitalismo de compadrio em sua versão germânica, mais elegante que a tropical, mais bem vestida, mais organizada nas planilhas, mas com a mesma anatomia. Estado dono, regulador subordinado, empresa privada minoritária recebendo dividendos, sindicato calado porque o emprego está garantido, oposição política calada porque ninguém quer ser acusado de ser contra o aeroporto. Todo mundo ganha, menos o sujeito que financia tudo sem nunca ter sido consultado.

O resultado, no fim do trimestre, é a foto que o investidor vê: receita em alta, EBITDA crescendo, terminal novo cortando a fita. O que ele não vê é o subsídio cruzado embutido no modelo, a barreira de entrada que impede qualquer aeroporto privado de competir de verdade na região, o custo de oportunidade dos bilhões que poderiam ter ficado nas mãos de quem os produziu em vez de migrarem para concreto e aço sob gestão estatal. A diferença entre o que aparece e o que está escondido é exatamente o tamanho da mentira contábil que sustenta esse tipo de empresa.

Quando uma operação assim apresenta resultados positivos, o jornalismo econômico bate palmas e chama de exemplo de eficiência. Quando apresenta prejuízo, o mesmo jornalismo explica que se trata de "infraestrutura estratégica" e que o Estado precisa entrar com mais capital. É o jogo perfeito: cara eu ganho, coroa você perde. Frankfurt acaba de inaugurar mais um andar dessa engenharia, e os números do primeiro trimestre são apenas a propaganda que justifica a próxima rodada de tarifa, a próxima emissão de dívida, o próximo bilhão que vai sair do bolso de quem nunca pisou naquele saguão.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.