O debate público brasileiro virou uma feira de hipócritas que descobriram a liberdade de expressão no exato instante em que a tesoura passou a cortar o lado deles. Antes, quando o cassetete batia no vizinho, era "combate à desinformação", "responsabilização das plataformas", "moderação necessária". Agora, com o vento mudando, os mesmos sujeitos que aplaudiam a mordaça redescobriram o valor sagrado da palavra livre. Quer dizer, descobriram que liberdade de expressão é boa quando protege a opinião deles. Não é. Nunca foi. E é precisamente esse mal-entendido que produziu o pântano em que estamos atolados.
Liberdade de expressão não é um carimbo de qualidade sobre o conteúdo do que se diz. Não é um selo que valida sua tese, sua causa, seu panfleto. É algo muito mais modesto e muito mais radical ao mesmo tempo, é uma proibição dirigida ao Estado de transformar discordância em crime. O direito não nasceu para que o iluminado tivesse plateia garantida, nasceu para que o sujeito comum não fosse arrastado da própria casa por dizer o que o poderoso da vez achou inconveniente. Toda vez que se inverte essa lógica, transformando o direito em escudo de tribo, abre-se o caminho para que a tribo do lado, quando assumir o cabo do machado, faça exatamente o mesmo.
Olha, é só seguir o dinheiro e o organograma. Ministérios criados para "combater discurso de ódio", agências reguladoras de plataformas, comitês de checagem financiados com verba pública, ONGs que recebem para mapear "extremismo", consultorias que vivem de produzir relatórios sobre o que deve ser silenciado. Existe um ecossistema bilionário cuja sobrevivência depende de convencer a opinião pública de que algumas palavras são perigosas demais para circular sem tutela. E quem decide quais? Sempre os mesmos, sempre com a mesma agenda, sempre com o mesmo desprezo pelo cidadão que paga a conta. Não é luta contra a mentira, é folha de pagamento disfarçada de cruzada moral.
O ponto técnico, que os boçais fingem não entender, é que o sistema de preços do debate público funciona como qualquer outro mercado, ou seja, agrega informação dispersa entre milhões de cabeças que ninguém jamais conseguiria centralizar num gabinete. Quando se censura, não se elimina o erro, se elimina o mecanismo que permitiria identificar o erro. A ideia ruim não combatida apodrece nas catacumbas e volta mais forte; a ideia boa censurada morre antes de revelar sua utilidade. O burocrata que se acha capaz de separar joio do trigo no fluxo do discurso humano tem a mesma pretensão fatal do planejador central que jurava saber quantos sapatos a União Soviética precisava produzir. Deu no que deu.
Tem ainda a parte que o brasileiro médio sente na carne sem saber nomear. A censura nunca chega vestida de censura, chega vestida de cuidado, de proteção, de combate ao ódio, de defesa da democracia. É o despotismo macio, aquele que infantiliza o cidadão ao ponto de ele aplaudir as próprias algemas porque vieram embrulhadas em discurso terapêutico. Me diz uma coisa, alguém com dois neurônios funcionando ainda acredita que um tribunal, um órgão regulador ou uma big tech contratada pelo Estado vai decidir com isenção o que pode e o que não pode ser dito? A resposta está nas decisões dos últimos cinco anos, e quem fingir que não viu está mentindo para si mesmo.
Por isso a defesa da palavra livre não pode ser causa de partido, não pode ser bandeira de tribo, não pode ser conveniência tática. Tem que ser princípio inegociável mesmo, e principalmente, quando protege quem você detesta. No dia em que o sujeito que você odeia perder o direito de falar, prepare a mala, porque o seu está marcado para a próxima rodada. Liberdade de expressão não é prêmio de bom comportamento ideológico. É a única coisa que separa o cidadão do súdito, e o súdito da carne moída.
Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.