A Freedom Broker baixou o martelo sobre a Snap e o motivo é prosaico ao ponto do constrangimento, a receita de publicidade encolheu, os anunciantes estão sumindo, e o papel passou a valer menos do que valia ontem. Repare na cena, uma empresa que vale bilhões de dólares depende inteiramente de convencer marcas de tênis e fast food a pagar para empurrar banner na cara de adolescente entediado. Quando o adolescente cansa, o castelo treme. Quando o anunciante percebe que está pagando caro por engajamento inflado, o castelo desaba. E o analista, coitado, escreve relatório dizendo o que qualquer feirante de São Cristóvão saberia depois de uma semana com a banca vazia, freguês sumiu, é hora de baixar o preço.

Quer dizer, o curioso não é o rebaixamento, o curioso é a indústria inteira ter fingido por uma década que isso era inovação. Vendiam para o investidor a fábula de que atenção é o novo petróleo, que dados são o novo ouro, que cada clique era um barril extraído. Só esqueceram um detalhe que qualquer pessoa que já tentou vender alguma coisa para alguém conhece de cor, atenção forçada não vira venda, e venda que não acontece não paga salário de programador em São Francisco ganhando trezentos mil dólares por ano para mover um botão azul três pixels para a direita.

Olha, siga o dinheiro e a história fica mais clara ainda. O boom dessas plataformas foi construído sobre juro baixíssimo, sobre dinheiro impresso em escala industrial pelo banco central americano, sobre fundos de pensão desesperados por retorno que despejaram trilhões em qualquer coisa que prometesse crescimento. Era inevitável que aparecessem dezenas de empresas como a Snap, queimando caixa, prometendo lucro futuro, vivendo de captação. Quando o juro subiu, o feitiço acabou. O que parecia gênio empreendedor era apenas dinheiro barato vestido de camiseta preta com logo bordado. Suba a taxa, e o gênio vira mendigo.

Me diz uma coisa, faz sentido uma empresa que existe há mais de uma década, com centenas de milhões de usuários, ainda não saber como ganhar dinheiro de forma sustentável? Faz sentido se você entender que o produto nunca foi o aplicativo, o produto sempre foi a ação na bolsa. O aplicativo era o pretexto, o roteiro, o cenário de teatro. O verdadeiro negócio era levantar capital, distribuir opções aos executivos, fazer IPO, e torcer para o entusiasmo durar até a próxima rodada. Quando esse modelo encontra um anunciante que finalmente pediu para ver o retorno do investimento, encontra também o fim da festa.

E note a moral discreta da história, ninguém vai preso, ninguém devolve nada, ninguém pede desculpas. Os fundadores já venderam suas ações no topo, os executivos já levaram seus bônus, os bancos já cobraram suas comissões nos IPOs. Quem fica com o mico é o pequeno investidor que comprou a narrativa, o trabalhador cujo fundo de pensão alocou um pedacinho nessa aventura, e o anunciante que descobriu tarde demais que estava pagando para ser visto por contas falsas. O prejuízo se distribui, o lucro se concentrou, e a corretora aparece três anos depois para dizer que talvez seja prudente vender. Obrigado pela dica, gênio.

O recado para quem ainda acredita que tecnologia é igual produtividade, ou que startup é igual inovação, é simples e amargo, boa parte do que se vendeu como revolução digital foi só engenharia financeira em cima de juro zero. Quando o dinheiro voltou a custar dinheiro, a revolução virou ressaca. E a próxima onda, seja inteligência artificial ou o que vier, vai repetir o mesmo roteiro enquanto houver banco central disposto a financiar a euforia da vez. O capitalismo de verdade pune o erro, esse arremedo que vivemos socializa o erro e privatiza o êxito. Não é falha do mercado, é falha do que fizeram com o mercado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.