A notícia chega embrulhada em jargão de Wall Street, como sempre. A Freedom Broker rebaixou a Target porque o varejista enfrentaria um "ano de transição", expressão que no dicionário do mercado financeiro significa exatamente o que o cidadão comum sente toda vez que passa o cartão no supermercado e olha o extrato com cara de quem acabou de ser assaltado. Transição para onde, exatamente? Para o lugar onde a classe média americana está há pelo menos quatro anos: o buraco fiscal cavado por trilhões de dólares impressos do nada, distribuídos em programas heroicos e devolvidos ao consumidor sob a forma de prateleiras mais caras e salário real menor.
Olha, é preciso ter um certo talento para o cinismo institucional para olhar uma rede que vende de fralda a televisor, observar a queda no ticket médio, observar a migração do consumidor para marcas baratas e produtos de necessidade básica, e concluir que o problema é "transição de modelo". O modelo está intacto. Quem mudou foi o cliente, que descobriu, com a brutalidade dos números na conta corrente, que aquilo que chamavam de pacote de estímulo era na verdade um confisco disfarçado, cobrado em prestações mensais via etiqueta de preço. A corretora não está descobrindo nada de novo; está apenas chegando atrasada à festa que o consumidor já abandonou.
Quer dizer, siga o dinheiro e o roteiro se ilumina sozinho. Quando o Tesouro americano emite, o banco central compra, o crédito se expande artificialmente e o capital flui para onde a sinalização de preço diz que há demanda. Só que a demanda era falsa, inflada por dinheiro que ninguém produziu. Construiu-se capacidade, estoque, logística, contratação, expansão de lojas, apostando num poder de compra que era miragem monetária. Agora que a maré recua, descobre-se quem estava nadando pelado, e o varejo de massa, justamente por servir a quem sente primeiro o aperto, é o primeiro a aparecer despido no relatório dos analistas.
E há um detalhe delicioso que ninguém da CNBC vai sublinhar. A Target não foi vítima apenas da inflação; foi vítima também da própria covardia administrativa que abraçou modismos identitários por anos, alienou metade da sua base e descobriu, tarde demais, que ideologia em vitrine de loja afasta o cliente que paga a conta. Capitalismo de compadrio cultural cobra fatura. O consumidor não é militante, é gente cansada querendo comprar pasta de dente sem aula de moralidade na embalagem. Mas isso o relatório não diz, porque dizer custaria convites para os jantares certos em Manhattan.
O que esse rebaixamento revela, no fundo, é a doença crônica de uma economia que se acostumou a confundir liquidez com prosperidade. Quando o juro sobe para conter o estrago que a impressora fez antes, o feitiço se volta contra o feiticeiro, e o primeiro setor a sentir é exatamente aquele que depende do bolso comprimido das famílias. Não existe almoço grátis, e quando o almoço foi pago com dinheiro fabricado, a conta vem em forma de demissão, de margem comprimida, de loja fechada em cidade pequena que o relatório descreve com a frieza de quem nunca pisou em Ohio. A "transição" de que falam é só o nome bonito da ressaca.
Por fim, vale lembrar uma coisa que parece óbvia mas anda esquecida nos templos da análise técnica. O varejo não é um indicador qualquer; é o termômetro mais honesto da saúde econômica de um país, porque mede o que as pessoas reais fazem com o dinheiro real que sobra depois que o governo termina de levar a sua parte. Quando a Target tropeça, não é a Target que tropeçou. É a promessa de que se podia gastar trilhões sem consequência. A consequência chegou, está nas prateleiras, está no relatório, e está, sobretudo, no silêncio constrangido de quem fingiu por anos que economia era ciência política travestida de matemática.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.