Vinte por cento de todo o petróleo que move o mundo transita pelo Estreito de Ormuz. Vinte por cento. É um corredor de água com pouco mais de 50 quilômetros de largura no ponto mais estreito, e é ali que a guerra no Irã dobra o pescoço da economia global. Não é metáfora. A Agência Internacional de Energia usou exatamente estas palavras: a maior interrupção de fornecimento da história do mercado global de petróleo. Não a maior do século. A maior da história. E os governos do G7 se reuniram, emitiram comunicado, expressaram "profunda preocupação" e liberaram reservas estratégicas. O barril já subiu entre 10% e 13% desde o início do conflito. A conta ainda não chegou ao fim do mês de ninguém, mas chegará.
Existe uma ilusão confortável de que guerras no Oriente Médio são problemas do Oriente Médio, que a distância geográfica funciona como isolamento econômico. A história não tem paciência para esta ilusão. Nos anos 1970, um embargo de petróleo que durou meses foi suficiente para arrancar o mundo do ciclo de crescimento do pós-guerra e introduzir uma palavra nova no vocabulário econômico: estagflação, a combinação perversa de economia parada com preços subindo. O que os analistas da Oxford Economics projetam para um conflito prolongado lembra esse pesadelo: crescimento mundial caindo para 1,4%, recessão nas economias avançadas, China crescendo menos de 3,5%. E o FMI, aquela instituição que raramente diz algo antes que já seja tarde demais, avisou que vai rebaixar suas projeções. Quando o FMI avisa, é porque o fogo já está próximo da escada.
O petróleo caro é um imposto. Não o tipo votado pelo parlamento, debatido em plenário, contestado em tribunal. O tipo silencioso, invisível, que incide sobre absolutamente tudo, porque absolutamente tudo foi transportado por algum veículo que queimou combustível. A cada percentual que o barril sobe, o frete sobe, a embalagem sobe, o insumo agrícola sobe, a energia industrial sobe. O padeiro que compra farinha transportada por caminhão passa o custo para o pão. O supermercado que refrigera os alimentos com energia elétrica gerada por termelétrica passa o custo para a nota fiscal. E o trabalhador que recebe salário fixo paga tudo isso sem que ninguém tenha pedido sua opinião. A Europa, que importa energia pesadamente, deve perder pelo menos um ponto percentual a mais de crescimento do que o projetado. A Ásia, dependente do petróleo que passa por Ormuz, já entrou em modo de emergência. O Brasil, produtor de petróleo mas preso à lógica de uma estatal que precifica combustível conforme conveniência política, vai descobrir o que essa equação produz quando o mercado internacional não dá margem para populismo.
O que ninguém diz com clareza é que toda essa turbulência não começa no conflito em si. Começa antes. Começa nas décadas em que os bancos centrais do mundo ocidental mantiveram juros artificialmente baixos, inundaram a economia com crédito barato e criaram a ilusão de que crescimento podia ser fabricado com teclado, não com trabalho e poupança. Quando o ciclo artificial se encerra, qualquer choque externo, uma pandemia, uma guerra, um embargo, vira gatilho do ajuste que sempre esteve adiado. O que estamos vendo não é só consequência de uma guerra. É o momento em que as distorções acumuladas encontram o pretexto para se manifestar. A guerra é o estopim; a pólvora foi fabricada em escritórios com ar-condicionado anos antes.
No Brasil de 2026, a equação tem um ingrediente extra. O governo federal está em modo de gasto acelerado, o déficit primário não fechou como prometido e o real já respira com esforço diante de qualquer turbulência externa. Petróleo caro em dólar, com real pressionado, é o tipo de combinação que transforma inflação de 4% em inflação de 7% sem que nenhum ministro precise assinar nada. E aí começa o ciclo conhecido: preço sobe, governo anuncia intervenção, intervenção distorce o mercado, distorção exige nova intervenção. A crise no Oriente Médio vai testar se o Brasil aprendeu alguma coisa com as últimas vezes que tentou conter inflação importada com decreto. A resposta provável é não.
O mundo não ficou mais pobre porque a guerra começou. O mundo ficou mais pobre porque acumulou décadas de decisões que garantiram que, quando uma guerra começasse, não haveria gordura para absorver o choque. Reservas estratégicas são paliativo. Comunicado do G7 é ritual. O que não tem solução rápida é a dependência estrutural de um corredor marítimo instável, a ausência de diversificação energética séria e a crença de que é possível crescer indefinidamente financiado por dívida. A conta do Estreito de Ormuz não vai parar no Irã. Ela vai parar no bolso de quem menos tem condição de pagá-la, como sempre faz a conta de qualquer guerra que os poderosos decidem e os comuns financiam.
Com informações do Valor Econômico e Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.