A FTI Consulting, gigante global do ramo de "assessoria estratégica", acaba de anunciar a expansão da sua equipe de serviços de saúde na Austrália. O comunicado vem embrulhado naquele papel de presente que o setor adora usar, falando em "experiência em toda a cadeia de cuidados", "soluções integradas", "sinergias operacionais". Quem lê desavisado pensa que acabou de sair do forno uma nova clínica, um hospital, alguma coisa que de fato cure gente. Não saiu. Saiu mais um escritório com gente de terno cobrando por hora para dizer a burocratas o que burocratas já deveriam saber.
Olha, o padrão é velho como o primeiro funcionário público que descobriu que podia contratar o primo para opinar sobre o trabalho dele mesmo. O sistema de saúde australiano, como quase todo sistema de saúde do mundo desenvolvido, é um monstro híbrido: metade público, metade privado, inteiramente regulado, eternamente deficitário. Todo ano o custo sobe acima da inflação, a fila cresce, o cidadão reclama, e o político precisa mostrar serviço. É aí que entra a consultoria. Não para reduzir o Estado, que seria a solução. Para administrar a obesidade do Estado, que é o negócio.
Me diz uma coisa: se uma consultoria, em vinte anos de contratos com governos, de fato resolvesse os problemas que foi chamada para resolver, o que aconteceria com ela? Fecharia. Logo, o incentivo real, o que está escrito nas entrelinhas do balanço trimestral, é manter o problema vivo. Diagnosticar sempre, curar nunca. Recomendar reformas que geram mais relatórios, que geram mais reuniões, que geram mais cobranças por hora. É a medicina aplicada ao próprio Estado: tratar o sintoma para garantir que o paciente volte na semana que vem.
Siga o dinheiro, que o dinheiro é didático. O contribuinte australiano financia um sistema público de saúde. O sistema, por ser público, não sofre a disciplina do preço, do cliente que vai embora, do prejuízo que fecha as portas. Então, para simular eficiência sem ter eficiência, contrata consultoria. A consultoria cobra caro, produz apresentações lindíssimas em PowerPoint, sugere "transformação digital", "jornada do paciente", "otimização de fluxos". No fim do exercício, o custo total subiu, a consultoria fatura, o burocrata mostra que "está tomando providências", e o cidadão paga duas vezes: uma pelo sistema ineficiente, outra por quem foi contratado para explicar por que o sistema é ineficiente.
Há uma ironia cruel nisso tudo. Em qualquer mercado livre, quando um produto fica ruim, o consumidor vai para o concorrente, e o produto melhora ou some. Na saúde estatizada não existe essa saída. Você paga via imposto, goste ou não, e recebe o que a burocracia entregar. Criou-se assim um ecossistema em que o fracasso do serviço público vira oportunidade permanente para uma indústria paralela que se alimenta exatamente daquilo que deveria corrigir. É como contratar bombeiro que é pago por hora de incêndio. Ninguém apaga nada com pressa.
E não se engane com o anúncio australiano, porque a coisa é global, inclusive brasileira. Em qualquer lugar onde o orçamento público da saúde infla, lá estão as big four, as boutiques de estratégia, os consultores de governança, os especialistas em compliance hospitalar. Não são vilões de filme, são simplesmente agentes racionais respondendo ao incentivo mais generoso que o capitalismo moderno inventou: o cliente que não precisa lucrar, não precisa sobreviver, não precisa sequer existir dentro da lei econômica, porque imprime ou tributa o que precisa. Onde existe esse tipo de cliente, há sempre fila de fornecedor. O curioso é que chamamos isso de livre iniciativa quando, na verdade, é a forma mais refinada de capitalismo de compadrio que já se inventou: privado no lucro, público no risco, terceirizado na culpa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.