Os futuros do FTSE 100 escorregam, a libra esterlina trava no meio do caminho e o petróleo sobe outra vez, e a leitura que os jornais de Londres oferecem é aquela ladainha burocrática de sempre, como se commodities fossem fenômenos meteorológicos e não a consequência direta de décadas de escolhas políticas deliberadas. Quer dizer, a libra não anda fraca por acaso, o índice não recua por mau humor dos operadores, e o barril não encarece porque o vento mudou no Mar do Norte. Há uma cadeia de causas, e ela começa na impressora de moeda, passa pelo Tesouro britânico e termina no bolso do sujeito que abastece o carro em Birmingham achando que está vivendo uma fatalidade do destino.

Olha, uma economia que se orgulha de ter sido o centro financeiro do planeta deveria, no mínimo, conseguir blindar sua moeda contra um espirro do mercado de energia. Mas o Reino Unido fez exatamente o oposto nas últimas duas décadas. Fechou usinas, demonizou o carvão doméstico, sabotou a exploração de gás de xisto, abraçou metas climáticas redigidas em conferências de luxo e, ao mesmo tempo, manteve uma máquina estatal obesa que precisa ser financiada com emissão de dívida e expansão monetária. O resultado é matemático: quando o barril sobe, a libra cai, e quando a libra cai, tudo fica mais caro, e quando tudo fica mais caro, o Banco da Inglaterra promete combater a inflação que ele mesmo fabricou. É o ciclo perfeito do intervencionismo, aquele em que cada erro justifica o próximo.

Me diz uma coisa, qual o sentido de um país insular, cercado de petróleo no fundo do mar e com tecnologia de sobra para extraí-lo, importar energia da Noruega, do Catar e até dos Estados Unidos a preço de gala? A resposta não está na geologia, está na ideologia. Décadas de pressão regulatória, taxação punitiva sobre o setor, moratórias travestidas de prudência ambiental e um lobby verde que captura ministros como quem coleciona figurinhas transformaram a autossuficiência energética britânica em peça de museu. E o cidadão comum, que jamais foi consultado, descobre na conta de luz que escolheu, sem saber, financiar o estilo de vida de burocratas de Bruxelas e ativistas com passaporte diplomático.

Há ainda o detalhe que ninguém quer discutir, que é o papel do Banco Central nessa novela. A libra não está parada porque o mercado é caprichoso, ela está parada porque os investidores já entenderam que a autoridade monetária britânica vai recuar do aperto na primeira lágrima do Tesouro. O governo precisa rolar dívida, a dívida precisa de juros baixos, juros baixos precisam de uma libra fraca, e a libra fraca precisa de uma narrativa que culpe o petróleo, a guerra, o clima, a China, qualquer coisa, menos a impressora. Siga o dinheiro e você descobrirá que cada pence perdido pela moeda britânica reaparece como lucro contábil em algum balanço estatal disfarçado de política pública.

O que se vê é a manchete sobre o FTSE 100 recuando alguns pontos. O que não se vê é o aposentado que perdeu poder de compra, o pequeno empresário que não vai renovar o contrato de aluguel, o jovem que adiou o casamento, a fábrica que mudou para a Polônia, o restaurante que fechou em Manchester. A queda de um índice é o resumo gráfico de milhares de tragédias individuais que os economistas de televisão tratam como ruído estatístico. E enquanto o resumo for confortável o suficiente para caber numa legenda da Bloomberg, ninguém em Westminster vai mexer numa vírgula do arranjo.

A verdade desconfortável é que o Reino Unido não está sofrendo um choque externo, está colhendo uma safra plantada com esmero por três gerações de planejadores que acreditaram saber mais do que o mercado, mais do que os engenheiros, mais do que os consumidores e, principalmente, mais do que a aritmética. Uma nação que abdica da sua energia abdica da sua moeda, e uma nação que abdica da sua moeda abdica do seu futuro. O petróleo sobe, a libra trava, o índice recua, e Londres descobre, mais uma vez, que soberania não se decreta em comunicado oficial, se conquista nos fundamentos que ela mesma fez questão de demolir.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.