A notícia chega embrulhada em papel de presente: o FTSE 100 se prepara para um rebote, a libra escala posições contra o dólar, e os analistas de terno bem cortado da City sorriem para as câmeras como se algo de fundamental tivesse mudado. Não mudou nada. O que aconteceu foi o ritual habitual: o Banco da Inglaterra sinalizou, o mercado interpretou, os algoritmos compraram, e a manchete da Bloomberg saiu pronta para alimentar o noticiário do café da manhã. A economia real, aquela do padeiro de Manchester e do encanador de Liverpool, segue exatamente onde estava ontem, anteontem e há cinco anos: travada, encarecida, sufocada por uma carga tributária que faria corar até os coletores de impostos medievais.
Quer dizer, vamos ser honestos sobre o que é uma libra mais forte hoje. Não é sinal de produtividade britânica, não é reflexo de inovação industrial, não é prêmio por disciplina fiscal. É reação a expectativa de juros, é fluxo especulativo de quem aposta na próxima reunião do comitê monetário, é coreografia de curto prazo entre traders que nunca produziram nada além de planilhas. A moeda subiu porque o mercado acredita que o aperto monetário continuará, e o aperto monetário continuará porque os mesmos burocratas que criaram a inflação imprimindo dinheiro durante a pandemia agora precisam fingir que estão combatendo o monstro que eles mesmos pariram.
O FTSE 100, por sua vez, é um índice que há mais de duas décadas anda de lado em termos reais. Enquanto o resto do mundo desenvolvido viu suas bolsas multiplicarem, o pregão londrino tornou-se um museu de empresas de petróleo, bancos cansados e mineradoras dependentes da China. O rebote de hoje não muda essa fotografia. É folego de quem está afogado e conseguiu, por um instante, colocar a cabeça acima da linha d'água. Amanhã, depois de amanhã, na próxima crise de dívida soberana ou no próximo escândalo bancário, o mesmo índice estará apanhando de novo, e os mesmos analistas inventarão novas justificativas para velhos fracassos.
Olha, siga o dinheiro e a história fica clara. Quem ganha com a libra forte momentânea? Os importadores, os fundos hedge, os bancos que fazem arbitragem cambial, a aristocracia financeira que vive de comissões sobre o suor alheio. Quem perde? O exportador britânico, que já estava espremido pelo Brexit mal digerido e agora vê seu produto ficar mais caro lá fora. O turista britânico ganha alguns trocados na viagem de verão, e com isso o governo justifica que a política está funcionando. Funcionando para quem, é a pergunta que nenhum ministro responde. O salário real do trabalhador inglês está abaixo dos níveis de 2008. Quase duas décadas perdidas, e ainda assim a manchete vende rebote como vitória.
O que não se vê nesse otimismo de manchete é o emprego que não foi criado porque o capital fugiu para juros americanos, é a fábrica que fechou porque a energia subsidiada ficou cara demais, é o pequeno empresário que desistiu porque a regulação tornou impossível abrir um negócio sem um exército de advogados. A libra pode subir, a bolsa pode rebotar, mas a doença subjacente segue intacta: um Estado obeso, uma burocracia metástase, uma classe política que confundiu administrar país com gerenciar transferência de renda entre os próprios apaniguados. Os números de hoje são maquiagem em cadáver bem vestido.
A lição, como sempre, é a mesma e como sempre será ignorada. Não existe prosperidade duradoura saída de manipulação de juros, não existe moeda forte sem economia produtiva por trás, não existe bolsa saudável onde o Estado consome quase metade do PIB. O Reino Unido escolheu há décadas o caminho da gestão monetária criativa em vez da reforma estrutural dolorosa, e está colhendo exatamente o que plantou: ciclos curtos de euforia separados por ciclos longos de estagnação. Hoje é dia de festa na City. Amanhã a conta chega, como sempre chegou, e quem paga é quem nunca foi convidado para o banquete.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.