O noticiário de Londres acordou esta semana com a manchete da temporada, o FTSE 100 caminha para subir todos os dias, de segunda a sexta, e os analistas de banco já decretam que a Inglaterra voltou. Voltou para onde, ninguém explica. A economia britânica continua patinando entre estagnação e crescimento medíocre, a libra apanha do dólar há trimestres, a inflação serviços teima em não ceder e a dívida pública britânica passou dos cem por cento do PIB sem cerimônia. Mas a bolsa sobe. Quer dizer, alguma coisa está furada nessa história, e quem já viu esse filme antes sabe muito bem o nome do roteirista.

Existe uma diferença civilizacional entre uma bolsa que sobe porque empresas produzem mais e melhor, e uma bolsa que sobe porque a liquidez está jorrando dos canos do banco central direto na veia dos ativos financeiros. A primeira é prosperidade. A segunda é um truque de prestidigitação que se chama efeito Cantillon, ainda que ninguém na City queira pronunciar o nome, dinheiro novo entra primeiro nas mãos de quem está perto da torneira, infla os ativos que esses agentes carregam e só depois pinga, já diluído, na economia real do açougueiro de Manchester. O dono do portfólio festeja, o assalariado paga a conta no supermercado.

Me diz uma coisa, por que justamente o FTSE 100, índice das blue chips londrinas com forte exposição a commodities, energia e dividendos em libras fracas, é o que mais brilha? Porque libra fraca beneficia exportadora, porque expectativa de corte de juros pelo Banco da Inglaterra antecipa repique especulativo, e porque, no fundo, todo mundo na mesa sabe que o aperto monetário acabou antes de cumprir o trabalho. A inflação não foi domada, foi adiada. E enquanto for adiada, ativo de risco vira refúgio paradoxal, porque dinheiro parado em conta corrente é prejuízo garantido.

Siga o dinheiro, sempre funciona. Quem ganha com FTSE em alta enquanto o cidadão comum aperta o cinto? Os fundos de pensão da City, os family offices, os investidores institucionais que carregam essas ações há décadas, e, claro, os executivos pagos em stock options. Quem paga? O aposentado britânico que vê o custo de vida corroer a renda fixa, o pequeno comerciante que toma crédito caro porque os juros oficiais foram cortados na surdina mas o spread bancário não cedeu, e o jovem que desistiu de comprar imóvel em Londres porque cada rodada de liquidez empurra o metro quadrado para a estratosfera. A bolsa é um termômetro, e neste caso o termômetro está marcando febre da moeda, não saúde da economia.

O mais cômico é a narrativa de que isso prova a resiliência do capitalismo britânico. Resiliência coisa nenhuma. Isso prova que quando o Estado e o banco central se associam para sustentar preços de ativos enquanto deixam o trabalhador absorver a inflação, criam uma sociedade de dois andares onde o térreo trabalha para o mezanino especular. É o velho arranjo dos privilegiados, vestido de modernidade técnica, com gráficos coloridos e analistas de gravata explicando que tudo está sob controle. Está sob controle deles, não nosso.

Bolsa que sobe todo dia da semana em economia que não cresce é sintoma, não cura. É o anestésico antes do diagnóstico, e o diagnóstico, quando chegar, vai vir com fatura. Sempre vem.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.