O FTSE 100 caminha para mais um pregão de ganhos, e a manchete da Bloomberg vende o quadro como vitalidade do mercado britânico. Quer dizer, o índice sobe, a libra desce, e o leitor desavisado é convidado a aplaudir uma festa cuja conta ele próprio está pagando sem perceber. Olha, quando a moeda nacional perde valor frente ao dólar e às demais cestas, qualquer ativo precificado naquela moeda parece mais caro por aritmética pura, não por prosperidade. É o velho truque do mágico que troca a régua enquanto você olha para o objeto medido.

Existe um nome técnico para isso, mas o nome popular é mais honesto: pilhagem monetária. O Banco da Inglaterra, há mais de uma década, atua como uma fábrica de liquidez disfarçada de instituição respeitável, e o resultado é exatamente o que se vê agora. Empresas exportadoras da City lucram em moeda fraca, o investidor estrangeiro compra ativo britânico com desconto cambial, e o trabalhador inglês descobre na padaria que seu salário virou troco. A bolsa sobe, a poupança evapora, e os comentaristas chamam isso de equilíbrio.

Me diz uma coisa, quem ganha quando a libra escorrega? Os grandes fundos com posição em commodities denominadas em libra, os bancos que operam o spread cambial, o Tesouro britânico que diminui o peso real da própria dívida e os exportadores conectados ao governo. Quem perde? O aposentado, o pequeno poupador, o importador que não tem hedge, o jovem casal que sonhava comprar a primeira casa. Siga o dinheiro e o sermão da Bloomberg ganha tradução simultânea: o que se chama de mercado aquecido é, na prática, transferência de renda do bolso de quem não vê para o caixa de quem sabe onde colocar a mão.

Há uma falácia antiga que sobrevive porque agrada aos donos da imprensa econômica, a ideia de que bolsa em alta é sinônimo de país saudável. Não é. A bolsa pode subir porque a economia produz mais e melhor, ou pode subir porque o dinheiro está sendo destruído e procura refúgio em qualquer ativo que não seja papel-moeda. As duas situações têm o mesmo gráfico verde, mas significados opostos. Confundir as duas é o equivalente intelectual a celebrar a febre achando que é vigor. O termômetro sobe nos dois casos; o paciente está em estados radicalmente diferentes.

O Reino Unido é hoje um laboratório do que acontece quando se aceita, por décadas, que o banco central é uma divindade técnica acima da política, quando na verdade é o braço financeiro mais eficiente que qualquer governo já inventou para gastar sem cobrar imposto explícito. Imposto inflacionário não vai à urna, não passa pelo parlamento, não precisa de decreto. Basta apertar um botão e o cidadão paga, mansamente, vendo apenas que o supermercado, o aluguel e o seguro do carro ficaram mais caros sem motivo aparente. A pretensão de organizar uma economia inteira a partir de uma sala fechada em Threadneedle Street é exatamente o tipo de arrogância que sempre produziu desastre, só que agora vem com gráfico bonito e jargão em inglês.

O leitor que comemora a alta do FTSE enquanto sua libra perde poder de compra está aplaudindo o próprio empobrecimento, e a Bloomberg está ali, prestativa, fornecendo a trilha sonora. Não existe milagre, não existe almoço grátis e não existe bolsa em alta sustentada por moeda em queda. Existe ilusão estatística vendida como prosperidade, e existe quem ganhe muito dinheiro mantendo essa ilusão de pé. O resto é confete sobre o caixão da poupança popular.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.