A notícia chega com aquele sabor amargo de coisa previsível. Um servidor do Departamento de Eficiência Governamental, o famoso DOGE, criado sob a bandeira nobre de cortar desperdício e enxugar o Leviatã americano, foi pego discutindo contratos federais ligados a uma empresa na qual ele próprio possuía participação financeira. Quer dizer, o sujeito contratado para auditar o cofre estava, ao mesmo tempo, com a mão dentro dele. E isso não é desvio do projeto, é o projeto funcionando exatamente como sempre funciona quando se confia ao Estado o poder de redistribuir bilhões.
Olha, há uma ingenuidade quase comovente em achar que uma agência governamental, qualquer que seja seu nome de batismo, vai escapar da gravidade burocrática. Toda estrutura que decide quem ganha contrato e quem perde contrato vira, mais cedo ou mais tarde, balcão de negócios. O nome muda, o slogan muda, o logotipo muda. A natureza não muda. Quem tem o poder de assinar um cheque público sempre encontrará alguém disposto a partilhar do banquete, e na maioria das vezes esse alguém é o próprio assinante. Cortar gastos com gente que tem ações nas empresas beneficiadas pelos cortes é o mesmo que pedir para o lobo cuidar do rebanho porque ele jurou que virou vegetariano.
E aqui entra o ponto que a imprensa polida sempre ignora. Não se trata de um caso isolado, de uma maçã podre, de um deslize individual a ser corrigido com mais um comitê de ética e mais um formulário de declaração de bens. Trata-se da lógica estrutural do capitalismo de compadrio, esse arranjo no qual empresários e burocratas se confundem em jantares, conselhos consultivos e portas giratórias. O contribuinte paga, o lobista recebe, o funcionário público arbitra, e todos os três terminam o ano com o patrimônio engordado, exceto, claro, o contribuinte, que continua sendo o personagem invisível dessa peça.
Siga o dinheiro e a história se conta sozinha. Quem investe em determinada empresa antes de assumir um cargo que decide sobre contratos dessa mesma empresa não está cometendo um erro de cálculo, está executando um plano. O cargo público virou veículo de valorização patrimonial pessoal, e a justificativa moral, no caso do DOGE, é ainda mais perversa, porque se veste de virtude republicana. Cortar gastos em nome do povo enquanto se direciona, se favorece, se modela o corte para preservar ou ampliar interesses privados específicos é uma das formas mais sofisticadas de pilhagem legalizada que a modernidade inventou.
Há ainda o efeito colateral mais perigoso, aquele que ninguém vê de imediato. Cada escândalo desses dentro de uma iniciativa que se vendia como antídoto contra o desperdício corrói a única coisa que sustenta qualquer reforma genuína, que é a confiança pública na possibilidade de reforma. Quando o remédio é fabricado pelos mesmos farmacêuticos que adoeceram o paciente, o cidadão comum aprende, por enésima vez, que a única diferença entre o reformador e o reformado é a ordem em que aparecem no noticiário. A lição se acumula no inconsciente coletivo e gera o pior dos cinismos, aquele que paralisa qualquer tentativa futura de mudança verdadeira.
O DOGE prometia ser a guilhotina contra a gordura estatal. Está virando, na prática, mais um departamento para alimentar a gordura, agora com marketing de austeridade. A solução nunca esteve em criar nova agência para fiscalizar as antigas, criar novo czar para vigiar os velhos czares, criar nova camada burocrática para limpar a sujeira da camada anterior. A solução está em tirar do Estado o poder discricionário de escolher vencedores e perdedores. Enquanto houver bilhões para distribuir, haverá fila de candidatos a distribuidor, e todos chegarão jurando que desta vez é diferente. Não é. Nunca foi.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.