A cena se repete com a regularidade de uma novela das oito. Funcionários de uma das maiores empresas de tecnologia do planeta assinam carta aberta pressionando o CEO a recusar contratos militares de inteligência artificial classificados pelo governo dos Estados Unidos. O argumento é o de sempre, embrulhado em linguagem de boutique ética. A IA não pode servir à guerra, a empresa não pode se manchar, o mundo está observando. Quer dizer, o engenheiro que ganha trezentos mil dólares por ano para escrever código num escritório climatizado descobriu, de repente, que tem alma de pacifista e quer transformar o conselho de administração no comitê central da sua consciência.

Olha, há uma confusão de papéis aqui que precisa ser desmontada com calma. O funcionário não é dono. O funcionário foi contratado. Ele vendeu horas do seu cérebro em troca de um salário, opções de ações, almoço grátis e massagem na cadeira ergonômica. Quem decide o que a empresa vende, para quem vende e em que termos vende, é quem arriscou capital, não quem aluga capacidade técnica por mês. Essa inversão, em que o empregado pretende ditar a estratégia comercial sob ameaça moral, é a versão Vale do Silício do soviete de fábrica. Trocaram a foice pelo crachá, mas o instinto é o mesmo.

Me diz uma coisa, por que essa indignação é tão seletiva? O Google opera na China há anos sob regimes de censura, ajusta resultados de busca conforme conveniência política doméstica, mantém parcerias com governos que tratam dissidentes como problema sanitário, e ninguém escreve carta aberta. Mas no momento em que o Pentágono, que paga em dólares cuja segurança depende exatamente da capacidade militar americana, aparece com um cheque, surge a crise de consciência. Siga o dinheiro e você verá que essa moral flutuante tem um padrão. Ela atinge sempre o mesmo alvo, o ocidente livre, e poupa sempre os mesmos beneficiários, regimes autoritários e o ativismo profissional financiado por ONGs com nomes em inglês.

Há também a questão técnica que esses missivistas fingem não enxergar. A China não terá ataque de pudor. Israel não terá. A Rússia não terá. Se o ocidente decidir que IA militar é tabu por decreto de assembleia de funcionários, o resultado prático não será um mundo mais pacífico, será um mundo em que adversários não democráticos terão monopólio de uma tecnologia decisiva. É a falácia do garoto que quebra a janela achando que aquece a economia do vidraceiro. Vê-se o ganho moral imediato, a foto bonita, o aplauso interno. Não se vê o vácuo de poder, o desequilíbrio estratégico, o custo futuro pago em vidas alheias.

O fenômeno mais grave, contudo, é cultural. A grande corporação americana virou refém de minorias barulhentas internas que confundem emprego com sacerdócio. O sujeito é contratado para otimizar modelos, mas se vê como cruzado de uma religião difusa que mistura clima, gênero, antimilitarismo e uma noção infantilizada de bondade global. E a liderança, em vez de lembrar a esses moços que existe uma porta aberta para quem não concorda com o negócio, hesita, pondera, contrata consultoria de DEI e pede paciência aos acionistas. Foi assim que se construiu o despotismo suave dos nossos dias, não com tanques na rua, mas com comitês de ética dentro de cada departamento de RH.

O que está em jogo, no fundo, não é se o Google fará ou não software para o Pentágono. Esse contrato sai, com ou sem a carta. O que está em jogo é quem manda na empresa privada na América de 2026. Se for o acionista, capitalismo. Se for o funcionário ativista, alguma coisa que precisa de outro nome porque capitalismo não é mais. E quando uma civilização permite que seus engenheiros se sintam sacerdotes, e seus sacerdotes se sintam engenheiros, ela já perdeu a bússola muito antes de perder a guerra.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.