Um investidor pioneiro saiu na Investing.com decretando como profecia comercial aquilo que qualquer um com olhos para ler balanço já desconfiava: Tesla e SpaceX caminham para virar a mesma coisa. O argumento é o de sempre, sinergia, escala, integração de engenharia, baterias conversando com foguetes, IA conversando com Starlink, e por aí vai a ladainha das apresentações de PowerPoint. O mercado bate palmas, os analistas correm para reciclar planilhas, e a manada compra a tese antes mesmo de existir um documento de fusão. Tudo lindo, tudo limpo, tudo orgânico, dizem.

Só que o capitalismo de verdade não funciona assim, e o que se chama de "inevitabilidade" raramente é resultado da livre concorrência. Quando duas empresas do mesmo dono, que vivem há mais de uma década respirando crédito subsidiado, contratos da NASA, incentivos fiscais estaduais, créditos regulatórios de carbono vendidos para concorrentes obrigados por lei a comprá-los, e linhas de financiamento que nenhum padeiro de Sorocaba veria pela frente, decidem que vão se juntar, isso não é convergência tecnológica. É consolidação política. É o reconhecimento, pelo próprio interessado, de que o arranjo já era um só, e que agora convém formalizar o que o contribuinte vinha pagando em duas faturas separadas.

Olha, siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. A SpaceX é, na prática, fornecedora estratégica do governo americano, com contratos bilionários do Pentágono, da NASA e da inteligência. A Tesla foi alavancada por créditos regulatórios que valeram, em alguns trimestres, mais que o lucro operacional dela própria, e por um ecossistema de subsídios verdes que transferiu renda do contribuinte médio para o comprador de carro de noventa mil dólares. Junte os dois balanços, e você tem o maior beneficiário privado de dinheiro público da era moderna, com a vantagem retórica de se vender como ícone do livre mercado. É a piada perfeita, o sujeito que mama no Estado vestido de empreendedor heroico.

E aqui vem a parte que ninguém quer enxergar, porque o que se vê é o foguete pousando de ré em câmera lenta, embalado em trilha sonora épica, e o que não se vê é o concorrente que nunca existiu porque foi sufocado no berço pela escala que só dinheiro estatal compra. O que não se vê é o capital humano e financeiro desviado de mil pequenas iniciativas para uma só, escolhida a dedo pelos burocratas que decidem qual tecnologia é o futuro. Quer dizer, planejamento central com logotipo brilhante continua sendo planejamento central, e a história econômica é generosa em mostrar que conglomerado nascido no colo do Estado costuma envelhecer mal, lento e arrogante.

Me diz uma coisa, qual o problema de duas empresas privadas se fundirem? Nenhum, em princípio. O problema começa quando o privado é privado só na hora do lucro, e socializado na hora do risco, do crédito, do contrato e da regulação feita sob medida. Quando a "inevitabilidade" anunciada por um insider funciona como sinal de compra coordenado para o rebanho de investidores, vale lembrar que mercado de capitais sem informação simétrica é cassino, e cassino com a casa subsidiada pelo Tesouro é fraude com gravata. A fusão pode até acontecer, pode até gerar valor real, mas que ninguém venda como triunfo do empreendedorismo aquilo que é, na origem e no fim, um arranjo entre acionista bilionário e governo amigo.

O conglomerado que vai do sedan elétrico ao satélite militar não é o futuro do capitalismo. É a versão high-tech do mercantilismo do século dezessete, com casaca de neoprene e foguete reutilizável. E quando a poeira do hype baixar, quem vai pagar a conta da sinergia continua sendo o mesmo de sempre, o cidadão comum, que nunca foi consultado se queria financiar o império de ninguém.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.