A Futu Holdings, corretora digital com sede em Hong Kong e listada na Nasdaq, anunciou um programa de recompra de ações no valor de US$ 418 milhões. O mercado reagiu como sempre reage a esse tipo de anúncio, com aquele entusiasmo automático de quem aprendeu a bater palma antes de entender o que está sendo aplaudido. Recompra de ações virou sinônimo de boa governança, de gestão alinhada com o acionista, de empresa madura que devolve capital. Quase ninguém pergunta a pergunta óbvia: se a companhia tem quase meio bilhão de dólares sobrando, por que diabos não está investindo esse dinheiro em crescer o próprio negócio?
A resposta honesta, aquela que nenhum relatório de relações com investidores vai admitir, é que recompra de ações em escala industrial costuma ser o atestado público de que a diretoria não enxerga oportunidade de retorno superior dentro da operação. Quer dizer, é a empresa confessando, com sorriso amarelo e powerpoint colorido, que não sabe mais o que fazer com o caixa. Em vez de abrir nova frente, comprar concorrente, contratar engenheiro, expandir produto, prefere reduzir o número de ações em circulação para inflar artificialmente o lucro por ação e fazer o gráfico subir no curto prazo. É contabilidade criativa vestida de generosidade.
Olha, ninguém precisa ser hostil ao mecanismo em si. Devolver capital ao acionista é legítimo quando a alternativa é desperdiçá-lo em aventura corporativa. O problema é o contexto. Estamos falando de uma corretora chinesa que opera num ambiente regulatório onde Pequim, com uma canetada, pode redefinir o que é legal de uma sexta para uma segunda. A própria Futu já apanhou duro da Comissão de Valores Mobiliários chinesa por servir clientes do continente sem licença adequada. Recomprar ações nesse cenário tem um sabor adicional, o de blindar valuation contra o risco político que ninguém quer precificar mas todo mundo sabe que existe.
E aí vem a parte que os entusiastas da engenharia financeira nunca colocam no slide. Recompra agressiva, financiada com caixa ou pior, com dívida, transfere risco do acionista presente para o acionista futuro e para o credor. Se o ciclo virar, se o juro internacional apertar mais, se Pequim resolver bater na cabeça das fintechs de novo, a empresa que sangrou meio bilhão para sustentar o múltiplo descobre que ficou com menos colchão para atravessar a tempestade. É a velha história da janela quebrada, só que ao contrário: o que se vê é o gráfico subindo hoje, o que não se vê é a resiliência destruída amanhã.
Existe também o aspecto cultural do circo. Vivemos uma era em que o trimestre virou unidade de medida da eternidade corporativa. CEO que entrega lucro por ação crescente recebe bônus milionário, mesmo que esse crescimento venha de feitiço contábil e não de produtividade real. Recompra é o instrumento perfeito para esse jogo, porque maquia indicador, agrada analista de Wall Street e ainda compra paz com o ativismo de fundo. Todo mundo sai satisfeito da reunião, menos o capitalismo de verdade, aquele que cresce produzindo coisa nova em vez de redistribuir papel velho.
No fim das contas, US$ 418 milhões é um número grande o suficiente para virar manchete e pequeno o suficiente para não doer no balanço. A Futu compra ações, o investidor comemora, o regulador chinês continua de tocaia, e ninguém pergunta o que poderia ter sido feito com esse dinheiro num mundo onde corretora ainda precisava conquistar cliente em vez de seduzir gestor de fundo. Quando a empresa começa a comprar a si mesma, é porque parou de acreditar que pode comprar o futuro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.