Os futuros do S&P 500 e do Nasdaq amanheceram no vermelho depois de seis semanas consecutivas de alta, com o pretexto da vez sendo as negociações em torno da guerra no Irã e os próximos sinais de juros e atividade nos Estados Unidos. Quer dizer, o investidor descobriu, mais uma vez, que existe mundo real fora do gráfico. A bolsa subiu em linha reta enquanto o Oriente Médio queimava, e agora finge espanto porque o petróleo, a logística e o risco entraram na conta. Não entraram agora. Sempre estiveram lá. O que mudou foi a disposição de olhar.
Olha, há uma certa comédia em ver analistas de banco explicando a queda como se fosse novidade. O rali das últimas semanas não foi produto de produtividade nova, de inovação súbita ou de algum milagre de eficiência industrial americana. Foi liquidez. Foi a aposta de que o banco central vai cortar juros, de que o Tesouro vai continuar emitindo dívida como se fosse confete em desfile e de que o dólar vai seguir sendo o problema dos outros. Quando o preço de um ativo sobe porque há dinheiro demais perseguindo papel, e não porque há valor sendo criado, qualquer notícia serve de gatilho para a correção. Hoje foi o Irã. Amanhã será outro nome no mapa.
Me diz uma coisa: quem ganha com uma guerra que se arrasta em negociações infindáveis? Não é o contribuinte americano, que paga o porta-aviões. Não é o consumidor europeu, que paga o gás. Não é o trabalhador brasileiro, que paga o diesel mais caro no posto da esquina sem entender por que. Siga o rastro do dinheiro e você vai encontrar o complexo industrial militar com encomendas garantidas, os fundos de hedge posicionados em energia, os governos justificando expansão de gasto com a desculpa da segurança nacional. A guerra é cara, mas para alguns é o melhor negócio do século. Para o resto, é o imposto inflacionário disfarçado de patriotismo.
E aqui aparece a velha falácia da janela quebrada, vestida de terno de Wall Street. Dizem que a guerra aquece a economia, que reconstrução gera emprego, que o setor de defesa puxa o PIB. O que ninguém mostra é o que deixou de existir: as fábricas que não foram construídas porque o capital virou míssil, os hospitais que não foram erguidos porque o orçamento virou base militar, as poupanças corroídas porque o banco central financiou a farra imprimindo. O que se vê é a manchete da bolsa caindo dois por cento. O que não se vê é o aposentado que perdeu poder de compra silenciosamente, mês após mês, enquanto a imprensa econômica celebrava recordes nominais.
O detalhe mais revelador da semana é a obsessão com os próximos dados de atividade e a próxima ata do Federal Reserve, como se a economia real americana fosse uma extensão do humor de doze burocratas reunidos numa sala em Washington. É exatamente esse o problema. Um sistema saudável não depende da palavra mágica de um comitê para decidir se vai investir, contratar ou poupar. Mas a praça financeira virou um cassino que aposta na próxima vírgula do comunicado oficial, porque o sinal do mercado, o preço do dinheiro, foi sequestrado há décadas. Sem juro real definido pela poupança real, ninguém sabe mais o que vale o quê. Resta o palpite, o boato, o tuíte.
A lição, para quem ainda quer aprender, é simples e desconfortável. Mercado inflado por liquidez artificial é castelo de areia esperando a maré. Geopolítica não é variável exógena, é a regra do jogo. E todo ciclo de euforia construído sobre dívida, juro reprimido e gastança estatal termina da mesma forma, mudando apenas o nome do país, o nome da guerra e o nome do presidente que vai aparecer na televisão prometendo que desta vez é diferente. Não é. Nunca foi.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.