O cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã durou aproximadamente o tempo que leva para um comunicado de imprensa secar. Assinado na última semana com toda a solenidade que o teatro diplomático exige, anunciado com os habituais adjetivos de "histórico" e "corajoso", o acordo se desfez antes de completar uma semana. Trump anunciou então o que qualquer pessoa com algum senso de escala geopolítica deveria considerar uma bomba econômica lançada contra o mundo inteiro: o bloqueio norte-americano ao Estreito de Ormuz. Vinte por cento do comércio global de petróleo passa por aquele canal de 55 quilômetros. Dizer que vai bloqueá-lo não é uma ameaça militar, é uma declaração de guerra contra o próprio sistema de preços do planeta.

O mercado entendeu antes que qualquer analista de banco conseguisse formular a explicação. Os futuros do Dow Jones despencaram mais de 500 pontos ainda na madrugada de domingo para segunda, o S&P 500 recuou 1,3% e o Nasdaq 1,4%. O petróleo americano subiu 8% e ultrapassou $104 o barril; o Brent saltou 7% para $103. Esses números não são "reação emocional" do mercado, esse clichê que os analistas usam quando os preços contrariaram o que disseram na semana anterior. Esses números são a agregação de milhões de decisões individuais de pessoas que estão colocando dinheiro real na mesa e dizendo: a situação piorou, o risco aumentou, os custos vão subir. O mercado erra, adia, exagera, mas no longo prazo é o único mecanismo que honestamente conta o preço das decisões políticas.

Siga o dinheiro. Sempre siga o dinheiro. Enquanto o contribuinte americano médio vai pagar mais caro pelo combustível, pelo transporte, pelo plástico, pelo alimento que percorre mil quilômetros antes de chegar ao supermercado, as empresas de petróleo contabilizam lucros extraordinários, as indústrias de defesa registram novos pedidos, e os fundos especializados em commodities energéticas agradecem silenciosamente a cada tuíte presidencial sobre o Estreito de Ormuz. A guerra tem perdedores difusos e invisíveis, o cidadão comum que paga a gasolina mais cara e o imposto que financia o míssil. Tem ganhadores concentrados e visíveis, os que vendem o míssil, o barril, o contrato de reconstrução. Essa assimetria é tão velha quanto o poder organizado e não tem nada de acidental.

A diplomacia neste caso fracassou por razões que qualquer pessoa disposta a olhar além do comunicado oficial consegue identificar. Teerã não abriria mão do enriquecimento de urânio, porque sem ele perde a única carta de pressão que tem. Washington não aceitaria um Irã nuclearmente armado, porque isso redefine o equilíbrio de poder no Oriente Médio de maneira permanente. Os dois lados sentaram à mesa com objetivos mutuamente excludentes e saíram sem acordo, o que não é surpresa, é matemática. O que surpreende, se é que ainda surpreende, é a capacidade das chancelarias do mundo de performar negociação por dias, com intérpretes, fotógrafos, comunicados conjuntos, e depois emergir das salas sem ter resolvido nada que não fosse óbvio desde o início.

O bloqueio ao Estreito de Ormuz, se implementado, não seria apenas uma pressão militar sobre o Irã. Seria uma pressão econômica sobre China, Índia, Japão, Coreia do Sul, e toda a Europa que depende do fluxo de energia que passa por aquelas águas. É um instrumento de coerção tão abrangente que atinge aliados tanto quanto adversários, e isso é precisamente o ponto: quando um governo concentra poder suficiente para bloquear um estreito oceânico, deixa de ser um instrumento de defesa e se torna um instrumento de dominação. A questão de quem manda no preço global do petróleo nunca foi meramente econômica. Sempre foi política. E política significa, no fim das contas, quem tem o poder de forçar os outros a obedecer.

O que os futuros estão dizendo nessa segunda-feira de abril não é segredo guardado por especialistas. É a realidade nua: a paz é um bem escasso, mais cara de manter do que de destruir, e o custo de destruí-la é distribuído entre todos, enquanto os benefícios de destruí-la são capturados por poucos. O motorista que vai abastecer amanhã vai pagar a conta de um acordo que não existiu e de um bloqueio que pode nunca acontecer. Essa é a mecânica perfeita do poder: os que decidem nunca pagam, e os que pagam nunca decidem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.