Wall Street fechou na máxima histórica e os futuros agora se estabilizam, como diz a manchete da Investing, num exercício de prosa econômica que confunde termômetro com saúde. Quer dizer, o índice subiu, logo a economia vai bem. É a mesma lógica de quem mede a febre, vê quarenta graus, e conclui que o paciente está aquecido para o inverno. O que ninguém na CNBC quer explicar é por que, justamente no momento em que porta-aviões americanos se reposicionam contra o Irã, o dinheiro foge para ações em vez de fugir para ouro, como faria qualquer agente racional num cenário de guerra iminente. A resposta é tediosa e por isso evitada, o mercado não está comprando empresas, está fugindo do dólar para qualquer coisa que ainda guarde a ilusão de escassez.
Olha, é preciso ter um tipo muito específico de cegueira voluntária para olhar um índice na máxima histórica, ajustado por uma inflação que o governo americano mede com régua de borracha, e enxergar prosperidade. O S&P de hoje, descontado pelo M2 que dobrou desde 2020, está praticamente parado faz cinco anos. Você não enriqueceu, apenas o instrumento de medida encolheu. É o velho truque do açougueiro que aumenta a balança em vez do bife. Toda vez que o Federal Reserve insinua mais um corte de juros, os papéis sobem, e os jornalistas econômicos chamam isto de confiança, quando o nome correto seria desespero líquido procurando porto.
Siga o dinheiro. As tensões com o Irã não são acidente diplomático, são linha de receita para um setor inteiro que vive de Pentágono. As ações de defesa, Lockheed, Raytheon, Northrop, sobem antes mesmo do primeiro tiro, porque o mercado sabe ler contrato público melhor que qualquer analista político. O cidadão americano paga três vezes pela mesma bomba, uma na conta do imposto, outra na inflação que financia o déficit de guerra, e a terceira no preço da gasolina quando o Estreito de Ormuz fica nervoso. E o brasileiro paga junto, porque o petróleo precificado em dólar derretido chega aqui multiplicado pelo câmbio, pelos tributos federais sobre combustível, e pela Petrobras que decidiu importar a politica de preços do Itamaraty.
Tem ainda o detalhe que ninguém comenta nas mesas redondas, a euforia atual em Wall Street acontece com a curva de juros americana torcida, déficit fiscal de quase sete por cento do PIB em tempo de paz, e dívida pública passando dos trinta e seis trilhões. Em qualquer manual honesto, isto se chamaria a antessala de uma correção brutal. Na liturgia atual, chama-se nova era de produtividade impulsionada por inteligência artificial. É curioso como toda bolha, na sua fase terminal, descobre uma justificativa tecnológica para desafiar a gravidade. Foi assim com as ferrovias no século dezenove, com o rádio nos anos vinte, com a internet no fim dos noventa, e agora com os chips que vão, juntos, redimir os pecados fiscais de três décadas de impressora ligada.
Me diz uma coisa, o que acontece quando o Irã decide fechar Ormuz de verdade, ou quando o Tesouro americano precisa rolar três trilhões de dívida no próximo ano com investidor estrangeiro fugindo? O mercado que hoje celebra recorde vai descobrir, no susto, que recorde nominal em moeda fiduciária degradada é igual a medalha de papelão em desfile de carnaval, brilha por um dia e desmancha na primeira chuva. A festa atual não é sinal de saúde da economia real, é o último copo de champanhe antes da conta chegar, e a conta sempre chega, geralmente endereçada a quem não foi convidado para a festa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.