A cena seria cômica se não fosse trágica para o produtor brasileiro que financiou safra com juros de dois dígitos. Dois homens se encontram numa sala em algum lugar do hemisfério norte, sorriem para câmeras, trocam apertos de mão protocolares, e o mercado global de commodities tremula como vela ao vento porque dependeu da boa vontade desses dois senhores para precificar o feijão que alimenta porco na China. O futuro da soja caiu não porque a safra americana foi destruída por praga, não porque os chineses descobriram que prefiram quinoa, mas porque um aperto de mão não veio acompanhado de um pedaço de papel assinado. Quer dizer, o preço de um grão produzido por milhões de fazendeiros espalhados pelo planeta foi rebaixado por causa do humor de dois políticos. Pense nisso por trinta segundos e você entenderá tudo sobre o estado da economia global.

Olha, o mercado livre tem uma característica que economistas de banco fingem não ver: ele é um sistema de descoberta de informação que opera com bilhões de decisões individuais simultâneas, cada uma carregando um pedacinho de conhecimento que nenhum burocrata, nenhum chefe de Estado, nenhum comitê de planejamento consegue replicar. Quando você terceiriza a formação de preço para uma cúpula bilateral, você não está fazendo comércio, está fazendo política travestida de comércio. E política, por definição, é o jogo de pegar dinheiro de uns para entregar a outros, sempre com discurso pomposo sobre interesse nacional, segurança alimentar, equilíbrio geopolítico e outras invenções retóricas que servem para esconder o óbvio: alguém vai pagar a conta, e esse alguém nunca é quem está sentado à mesa.

Me diz uma coisa, por que diabos o produtor de Sorriso no Mato Grosso, que acordou às quatro da manhã, financiou maquinário, brigou com chuva, com seca, com fungo e com Receita Federal, precisa esperar a expressão facial de Trump ao sair de uma reunião para saber se vai pagar as contas no fim do mês? A resposta incômoda é que ele não precisaria, num mundo onde o comércio fosse efetivamente livre. O problema é que o livre comércio virou peça de museu, substituído pelo comércio gerenciado, esse arranjo barroco onde tarifas, cotas, subsídios, sanções e retaliações se acumulam como camadas de tinta numa parede velha, até que ninguém mais saiba qual é o preço real de coisa nenhuma. Os chineses subsidiam a soja deles, os americanos subsidiam a deles, os europeus inventam barreiras sanitárias para proteger a deles, e o brasileiro, que produz com menos subsídio que qualquer outro grande exportador, fica refém do circo alheio.

E aqui aparece a parte que ninguém quer enxergar, o que está por trás da cortina. Cúpulas comerciais não existem para abrir mercados, existem para fechar acordos que beneficiam grupos específicos com nome, sobrenome e endereço de lobista em Washington ou Pequim. Quando Trump promete comprar mais soja americana para os chineses, o que ele está dizendo, em bom português, é que vai usar o poder de coerção do Estado para forçar um redirecionamento de fluxo comercial que beneficiará o lobby agrícola do meio-oeste americano, aquele mesmo que financia campanhas, contrata ex-funcionários do governo e mantém think tanks produzindo papers acadêmicos sobre a importância estratégica da soja. O produtor brasileiro não tem lobby em Washington. Logo, paga a conta. Simples assim. Siga o dinheiro e você sempre encontrará a explicação que os jornais econômicos preferem não dar.

O mais delicioso de tudo isso é a histeria do mercado financeiro, que se comporta como adolescente apaixonado, suspirando a cada tweet, desmaiando a cada declaração, eufórico ou suicida conforme a vírgula do comunicado oficial. Esse é o subproduto inevitável de décadas de bancos centrais inflando bolhas, governos manipulando juros, planejadores tentando substituir a sabedoria espontânea do mercado por modelos econométricos que nunca preveem crise alguma mas explicam todas depois que acontecem. O mercado virou junkie de intervenção, e a abstinência o aterroriza. Toda vez que dois políticos não entregam o acordo prometido, o trader entra em pânico não porque algo real mudou no mundo, mas porque o cobertor regulatório onde ele dormia tranquilo está ameaçado.

A solução, claro, seria devolver o comércio às pessoas que produzem e às pessoas que consomem, deixar que preços se formem sem que governos os manipulem, abolir tarifas em vez de negociá-las, eliminar subsídios em vez de equalizá-los, e tratar produtor rural como adulto livre em vez de criança que precisa de tutor político. Mas isso ninguém propõe, porque ninguém ganha dinheiro com liberdade, todo mundo ganha dinheiro com a venda da próxima rodada de intervenção. Enquanto isso, o produtor brasileiro vai continuar plantando no escuro, esperando o próximo aperto de mão que pode ou não acontecer, refém de um jogo que ele não joga mas cuja conta sempre cai no colo dele. A soja caiu hoje, vai subir amanhã, e nada disso terá relação com a realidade física do grão. Bem-vindo ao mercado gerenciado, onde quem produz obedece e quem manda nunca produziu nada além de discurso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.