Os futuros de Nova York abriram a semana no vermelho e a explicação oficial é de um didatismo constrangedor: "tensões persistem apesar da extensão do cessar-fogo". Ora, me diz uma coisa, quando foi a última vez que um cessar-fogo no Oriente Médio precisou ser "estendido" porque estava funcionando? Cessar-fogo que se estende é cessar-fogo que não existe. É eufemismo diplomático para comprar tempo, reorganizar peças e manter o fluxo de contratos de defesa rodando sem que o eleitor americano precise ver corpos na CNN antes do café da manhã.
O que o investidor sério enxerga por baixo do ticker é o padrão antigo. Toda vez que Washington engasga numa negociação com Teerã, o preço do barril pisca, os títulos do tesouro americano ganham fila de pretendentes e as ações de tecnologia, que vivem de taxa de juros baixa e de narrativa de paz, levam chute na canela. Não há mistério, há coreografia. O dinheiro corre para onde sabe que o governo vai imprimir mais, e foge de onde sabe que o governo vai gastar sem produzir.
E aqui começa a parte que nenhum analista de banco vai escrever no relatório da manhã: quem ganha com a "persistência das tensões"? Siga a trilha. Os fabricantes de armamento listados em bolsa sobem quando Wall Street cai, porque o orçamento do Pentágono é a única rubrica verdadeiramente bipartidária em Washington. Democratas e republicanos brigam por quase tudo, menos pelo cheque em branco do complexo militar-industrial. O cessar-fogo estendido é, na prática, um contrato prorrogado. Enquanto o cidadão comum paga o barril mais caro no posto e o pão mais caro na padaria, alguém em Arlington fecha o trimestre sorrindo.
Há ainda a ilusão de que mercado em queda significa "correção saudável". Não significa nada disso. Significa que o sistema de preços, esse organismo maravilhoso que ninguém projetou mas que funciona melhor que qualquer comitê, está tentando precificar o risco real de uma guerra que o establishment jura não querer enquanto financia os dois lados do tabuleiro. Preço de ativo em queda é informação, não doença. A doença é tentar curar isso com mais liquidez, mais estímulo, mais intervenção do banco central americano que já transformou dólar em commodity de confiança duvidosa.
O Brasil, como sempre, assiste sentado na arquibancada achando que a briga é dos outros. Não é. Cada tremor no Golfo chega aqui na forma de real desvalorizado, combustível mais caro, inflação importada e juros que o Banco Central brasileiro não tem coragem política de segurar. Somos passageiros de uma aeronave que nem pilotamos, mas pagamos a passagem em dobro. E ainda aplaudimos quando o comandante anuncia que vai "estender o voo" para evitar a turbulência, como se turbulência adiada não fosse turbulência acumulada.
No fim, a lição é a mesma de sempre, repetida com roupagem nova. Guerra não é oportunidade de compra, é sintoma de que o sistema político perdeu a capacidade de dizer não ao próprio apetite. Cessar-fogo estendido é tempo comprado com dinheiro que ainda não foi impresso. E mercado que cai diante disso não está sendo pessimista; está sendo, pela primeira vez no mês, honesto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.