O S&P 500 fechou em 6.886 pontos nesta segunda-feira, uma alta de 1,02% que coroou sete sessões consecutivas de valorização, e os futuros de Wall Street amanheceram estáveis, como quem alisa a gravata depois de uma noite de excessos. O Goldman Sachs acabou de reportar receita de 17,2 bilhões de dólares no primeiro trimestre, lucro de 5,63 bilhões e retorno sobre patrimônio de quase 20%. O JPMorgan reporta amanhã, com expectativa de lucro por ação 7,7% acima do ano anterior. O Morgan Stanley vem logo atrás, com crescimento esperado de 16% nos lucros. O setor financeiro como um todo projeta alta de 20% nos resultados. Alguém olhando só para esses números juraria que vivemos uma era de ouro.

Só que não vivemos. Vivemos uma era de ouro falso, daquele que brilha até você morder e sentir o gosto de lata. O governo americano empilhou 145 pontos percentuais de tarifas sobre produtos chineses desde janeiro, e agora ameaça mais 50%. A gasolina subiu 21,2% por causa do conflito no Oriente Médio. O índice de preços PCE foi revisado para cima, para 2,7%, quando a expectativa era 2,4%. A energia disparou mais de 10%. Economistas estimam que o pico do impacto inflacionário dessas tarifas vai se espalhar entre abril e outubro. Quer dizer, o incêndio já começou e os bombeiros estão discutindo se usam água ou gasolina.

Olha, a coisa é velha como o próprio mercado. Quando os bancos nadam em dinheiro enquanto a economia real sufoca com preços em disparada e crédito incerto, o que você tem não é prosperidade, é redistribuição. Os grandes bancos lucram justamente nos momentos de volatilidade, com mesas de trading surfando a turbulência que esmaga o sujeito comum. A receita do Goldman cresceu 12% no ano; pergunte ao dono de uma pequena empresa importadora quanto cresceu a receita dele com tarifas de 145% nos insumos. A resposta provavelmente vem acompanhada de um palavrão.

E o Federal Reserve? O Fed manteve a taxa em 3,50-3,75%, mas as atas de março revelaram algo que o mercado fez questão de ignorar: alguns membros cogitam subir juros, não cortá-los. Leia de novo. Subir. Enquanto o mercado precifica cortes e festeja como se o dinheiro fácil fosse eterno, há gente dentro do próprio banco central americana olhando para os dados de inflação e pensando que talvez, só talvez, a festa precise acabar antes que o edifício inteiro venha abaixo. Toda vez que crédito barato inflou bolhas e o ajuste foi adiado em nome da estabilidade, a correção que veio depois foi proporcional ao tempo que se fingiu que estava tudo bem. Não é previsão, é padrão histórico. 1929, 2000, 2008, a receita é sempre a mesma.

Me diz uma coisa, que tipo de mercado sobe 7% em uma semana enquanto o cenário macroeconômico piora em cada indicador que importa? O tipo que está movido por expectativa, não por fundamento. O tipo que sobe porque acredita que o governo vai intervir se tudo desabar, que o Fed vai cortar juros se a coisa apertar, que sempre haverá alguém lá em cima para segurar a queda. Esse tipo de confiança não é economia, é religião. E como toda fé cega, funciona perfeitamente até o dia em que o milagre não acontece. Os resultados dos bancos são reais, os lucros são gordos, os bônus serão pagos. Mas a conta das tarifas, da inflação e do crédito artificial não desaparece porque o S&P subiu 1%. Ela só muda de endereço, do balanço de quem ganha para o bolso de quem paga. E quem paga, como sempre, é o último a saber.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.