Basta o barril subir alguns dólares e o preço da gasolina engasgar em algum porto do Golfo para que os futuros do Dow Jones desabem antes mesmo do café da manhã em Nova York. É um espetáculo digno de estudo antropológico. Uma bolsa que se orgulha de representar a maior economia livre do planeta reage como um viciado em desintoxicação toda vez que a droga preferida, dinheiro barato e petróleo subsidiado por décadas de intervenção geopolítica, dá sinais de escassez. O mercado não está com medo do petróleo. Está com medo de perceber que a prosperidade dos últimos anos foi construída sobre a impressora de dinheiro do Federal Reserve e sobre a ilusão de que energia abundante era um direito adquirido.

Quer dizer, o pregão inteiro se ajoelha esperando a sentença do banco central americano como se ali estivesse a resposta para o preço do pão. Cada apostador em Chicago finge calcular, com modelos econométricos sofisticadíssimos, quantos pontos base o senhor Powell vai cortar. Cortar juros virou sacramento, e o altar é o comitê de política monetária. Ninguém pergunta o óbvio. Como é possível que a maior economia do mundo dependa, para respirar, de um comitê de treze pessoas decidindo o preço do aluguel do dinheiro? Toda vez que esse comitê erra, e ele erra sempre, a fatura chega para o trabalhador que vê o salário derreter e para o poupador que descobre que sua reserva de vinte anos comprava um carro em 2020 e hoje mal paga a entrada.

Olha, o petróleo em alta não é uma anomalia caprichosa da natureza. É o resultado previsível de anos empurrando políticas verdes idiotas, sabotando exploração doméstica, financiando guerras que ninguém quer explicar direito e depois se surpreendendo quando a oferta encolhe. Siga o dinheiro e você encontrará um séquito de burocratas de Washington que travaram oleodutos, subsidiaram painel solar chinês e agora choram porque a inflação de energia derruba o índice deles. A conta desse moralismo energético não é paga pelo secretário do clima. É paga pelo motorista que abastece o Uber às cinco da manhã em Cleveland e pelo caminhoneiro que descobre que o diesel comeu metade do frete.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que existe algo como um mercado livre em Wall Street quando cada tick do S&P depende da vírgula em uma ata de reunião fechada? O que se vê é o índice caindo hoje. O que não se vê é a alocação distorcida de capital que a política de juros artificialmente baixos produziu na última década, financiando zumbis corporativos, inflando imóveis e empurrando aposentados para ativos de risco porque o rendimento seguro virou piada. Quando a bolha estoura, o culpado nunca é quem soprou. É sempre o petróleo, é sempre a geopolítica, é sempre algum bode expiatório conveniente para não olhar no espelho.

Historicamente, toda vez que um império confundiu prosperidade com abundância de crédito, o final foi o mesmo. Roma diluiu o denário até virar cobre pintado e ainda achou que estava crescendo. Espanha entupiu Sevilha de prata do Novo Mundo e virou a economia mais pobre da Europa em duas gerações. Weimar imprimiu marcos para pagar reparações e produziu a hiperinflação que abriu as portas para o pior monstro do século vinte. Os Estados Unidos vêm imprimindo dólares como se não houvesse amanhã desde 2008, e o resto do mundo aceitava a farra porque não tinha alternativa. Está deixando de aceitar. O sinal está no ouro em máximas históricas, no petróleo teimando em subir, na China acumulando metal e no BRICS ensaiando alternativas. A festa não acabou por decreto. Acabou porque o vinho estragou.

A queda de hoje não é o problema. É o sintoma. O problema é que uma civilização produtiva, cheia de gente honesta trabalhando de sol a sol, entregou o volante da economia para um comitê de doutores em macroeconomia e um cartel de burocratas ambientais. Enquanto o Dow tremer a cada palavra do Fed, saiba que a liberdade econômica que os fundadores daquele país sonharam está reduzida a esmola de banco central. E esmola, todo mendigo aprende cedo, sempre vem com corrente no pescoço.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.