Madrugada típica em Nova York, futuros andando de lado, comentaristas repetindo a mesma ladainha de que o investidor está "cauteloso" à espera dos balanços corporativos e do payroll de sexta. Traduzindo do dialeto do terminal Bloomberg para o português dos mortais: ninguém sabe o que vai acontecer porque ninguém mais opera com base em fundamento, todo mundo opera tentando adivinhar qual será a próxima mexida da senhora que controla a torneira do dólar. O mercado de ações da maior economia do planeta transformou-se num cassino onde o crupiê não joga cartas, joga taxa de juros.

Repare na inversão grotesca. Antigamente, balanço de empresa importava porque revelava se o negócio estava de pé, se gerava caixa, se merecia o capital alheio. Hoje, balanço importa porque dá pista sobre quanto a economia está aquecida ou fria, e portanto sobre quando virão os próximos cortes ou altas de juros. O lucro deixou de ser fim e virou termômetro. A empresa virou sensor meteorológico do humor monetário. Quem ainda acredita que isso é capitalismo de mercado precisa explicar por que um relatório mensal de empregos do governo move trilhões de dólares em segundos.

O payroll, aliás, é o ritual mais revelador do nosso tempo. Toda primeira sexta-feira do mês, o planeta financeiro inteiro paralisa para receber um número produzido por uma agência estatal, número este que será revisado duas, três vezes nos meses seguintes, sempre para cima ou para baixo, frequentemente em magnitudes que tornariam o original uma anedota. E mesmo sabendo que o dado é furado, todo mundo aposta nele como se fosse evangelho. Por quê? Porque é nesse número fictício que a autoridade monetária se baseia para decidir quanto dinheiro vai imprimir ou enxugar. E como o dinheiro impresso entra primeiro nas mãos de quem está perto da torneira, adivinhar a torneira virou o esporte mais lucrativo do mundo.

Siga a trilha. Quem ganha com essa arquitetura? Os bancos primários que recebem a liquidez antes de todo mundo, os fundos que têm acesso a modelos preditivos sofisticados, as casas de análise que vendem palpite sobre o palpite. Quem perde? O sujeito que poupou a vida inteira em renda fixa e vê seu dinheiro virar pó porque a inflação real, aquela do supermercado, nunca bate com a inflação de gabinete. O empreendedor que não sabe se contrata ou demite porque o custo do capital muda conforme o vento de Washington. O aposentado que vê seu poder de compra evaporar enquanto os índices nominais sobem e os jornais celebram a "recuperação".

Há ainda o detalhe sublime de que essa estabilidade dos futuros é, ela própria, uma ficção. Os algoritmos zeram posições, os formadores de mercado equilibram livros, e o resultado é uma calmaria de superfície que esconde a tempestade subterrânea de uma economia inteira pendurada em expectativa de afrouxamento. Tire a muleta da impressora e veja o que sobra. Não sobra mercado, sobra ressaca. Toda essa aparente normalidade do índice futuro é o silêncio nervoso de quem joga roleta russa sabendo que cinco câmaras estão carregadas, mas torcendo para que a sexta seja a próxima.

O ensinamento dessa segunda-feira morna é que vivemos sob um regime onde a produção real é coadjuvante e a política monetária é protagonista. Empresas viraram apêndice da macroeconomia, investidores viraram leitores de tarô institucional, e o cidadão comum virou pagador da conta de uma festa para a qual não foi convidado. Quando o payroll sair na sexta e o mercado pular ou cair três por cento em dez minutos, lembre-se de que isso não é capitalismo funcionando. É capitalismo intubado, respirando pelo aparelho da impressora, e rezando para que ninguém puxe o fio da tomada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.