Trump anuncia uma pausa na Operação Ormuz e os índices futuros dos Estados Unidos disparam como se tivessem recebido vitamina na veia. Repare no detalhe que os comentaristas de televisão preferem ignorar: o mercado não está comemorando uma boa notícia, está comemorando o cancelamento parcial de uma má notícia que o próprio governo fabricou. É o equivalente econômico de aplaudir o bombeiro que apaga o incêndio que ele mesmo ateou. E ninguém parece achar isso estranho.

Olha, o estreito de Ormuz é a artéria por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta, e qualquer espirro militar naquela faixa de água levanta o preço do barril, encarece o frete global, mexe com o dólar, com os juros longos, com a expectativa de inflação e, no fim da linha, com o preço do pão na padaria de São Paulo. Quando uma única decisão de gabinete em Washington consegue movimentar trilhões em capitalização de mercado num intervalo de horas, o que se está confessando é que não existe mais economia de mercado no sentido clássico do termo. Existe um cassino geopolítico onde o crupiê usa farda.

Quer dizer, o investidor médio acordou hoje mais rico não porque alguém produziu mais, inventou algo, atendeu melhor um cliente ou economizou recursos. Acordou mais rico porque o humor presidencial mudou. Essa é a definição mesma de riqueza fictícia, riqueza que depende do capricho do soberano e que pode evaporar no próximo tweet. É exatamente o tipo de prosperidade que civilizações sérias aprenderam, à custa de séculos de tragédia, a desconfiar. Quando seu patrimônio depende mais do telefone vermelho do que do balanço da empresa, você não é dono de capital, é refém de palácio.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais nítida. Quem ganha com a tensão prévia? O complexo industrial militar, que vende mais quando o tambor de guerra ressoa. Quem ganha com a pausa? Os fundos posicionados em risco, os bancos que financiam a dívida americana e que precisam de juros estáveis, e o próprio governo, que evita que o custo da rolagem da sua montanha de Treasuries exploda. Quem perde nessa coreografia? O sujeito comum, que paga gasolina mais cara na ida e ganha apenas a promessa de não pagar ainda mais cara na volta. É o velho golpe do espantalho: cria-se o medo, vende-se o alívio, e o público agradece.

Há ainda o pequeno detalhe constitucional que ninguém menciona em horário nobre. Operação militar de envergadura no Golfo Pérsico, com potencial de iniciar conflito de proporções sistêmicas, foi decidida e desfeita sem que o Congresso americano fosse consultado de forma substantiva. O poder de declarar guerra, que nas constituições republicanas clássicas pertencia exclusivamente à representação popular, virou prerrogativa de gabinete. E o mercado financeiro, que deveria ser o primeiro a se incomodar com a concentração arbitrária de poder, aplaude porque o capricho de hoje foi favorável ao bolso de hoje. Amanhã, quando o capricho for em direção contrária, virão os mesmos analistas pedindo socorro ao banco central.

O que se vê é uma alta nos futuros e a manchete tranquilizadora. O que não se vê é a corrosão silenciosa de algo muito mais valioso do que qualquer pregão verde: a noção de que riqueza se constrói com trabalho, poupança e cooperação voluntária, não com a roleta russa das decisões imperiais. Enquanto o investidor festeja a trégua, esquece que continua morando na casa de um homem armado que pode mudar de ideia a qualquer momento. E casa de homem armado e instável, por mais bonita que seja a vista, nunca foi lar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.