Quarenta e cinco por cento em abril. O número salta da manchete como salto de vendedor de curso, e milhares de investidores que ontem xingavam o home broker hoje transferem fé e patrimônio para um modelo estatístico que, garantem, descobriu o segredo da bolsa. A notícia vem embalada como revolução tecnológica, mas é a mesma cena de sempre, só que com roupa nova. Antes era o guru do YouTube, depois o analista do banco, agora é o algoritmo. Muda o sacerdote, o templo continua o mesmo.

O mercado financeiro é o lugar mais honesto que existe no sentido de que pune rápido a arrogância, e justamente por isso atrai tanto charlatão. Todo ciclo de alta produz o seu profeta, e o profeta da vez fala em tensores e redes neurais. Acontece que nenhum modelo, por mais sofisticado, consegue agregar em tempo real o conhecimento disperso entre milhões de agentes reagindo a milhões de eventos que ainda nem aconteceram. O preço de uma ação não é um número a ser descoberto, é uma opinião coletiva em movimento. Quem promete decodificar isso está vendendo, com linguagem técnica, a mesma bola de cristal da cigana.

E siga o dinheiro, porque ele sempre conta uma história mais interessante que o press release. Quem lucra de fato com o hype da IA no mercado não é o pequeno investidor que comprou a carteirinha milagrosa, é o fundo que vende o produto, a corretora que cobra a taxa, a plataforma que monetiza o clique, o influenciador que recebe por indicar. O retorno de 45% num mês específico numa cesta específica é estatisticamente garantido em algum lugar do universo dos backtests, basta escolher a janela certa depois do jogo terminado. Chama-se isso, nos livros antigos, de falácia do atirador texano, o sujeito que atira primeiro e pinta o alvo depois.

O mais sintomático é a pressa com que o noticiário econômico abraça essa narrativa de salvação algorítmica, e aqui há uma simetria curiosa com o pensamento estatizante. A crença de que um cérebro central, seja o do burocrata seja o da máquina, pode calcular o que milhões de mentes livres negociam em cada instante é o mesmo velho vício de racionalismo construtivista travestido de inovação. Ontem era o comitê de planejamento quinquenal, hoje é a rede neural com cem bilhões de parâmetros. O figurino mudou, a pretensão é idêntica, e o desfecho histórico dessa pretensão é bem conhecido de quem leu alguma coisa antes de abrir conta em corretora.

O que não se vê na matéria de 45% é a fila silenciosa dos modelos que faliram no mês anterior, das carteiras que afundaram sem virar manchete, dos pequenos que entraram no topo convencidos pelo marketing e sairão no fundo convencidos de que o mercado é rigged. A reportagem mostra o vencedor, a estatística mostra a sobrevivência selecionada, o leitor inocente confunde uma coisa com a outra e assina a mensalidade. O custo invisível dessa euforia algorítmica é o analfabetismo financeiro de uma geração inteira que aprende a terceirizar a própria responsabilidade para um oráculo de silício.

Existe, claro, uso legítimo de inteligência artificial em finanças, para otimizar execução, reduzir custo operacional, detectar fraude, gerir risco. Isso é ferramenta, e ferramenta séria não vira manchete de abril com emoji de foguete. O que virou manchete é outra coisa, é a velha mercadoria da esperança repaginada, vendida a quem prefere adorar um deus novo a aprender a pensar por conta própria. O mercado livre premia quem estuda, erra, ajusta e persiste. A fantasia do atalho tecnológico premia, como sempre premiou, quem vende o atalho.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.