Olha que coisa curiosa. Enquanto os modelos oficiais, aqueles mesmos que erram a inflação trimestre sim, trimestre também, projetavam ganhos modestos de produtividade vindos da inteligência artificial, novas estimativas apontam que o impacto real pode ser dez vezes maior. Dez vezes. Quer dizer, o tamanho do erro não é um deslize de planilha; é a confissão silenciosa de que ninguém, em lugar nenhum, controla esse processo, porque ele nasce distribuído, espontâneo, milhões de pessoas testando ferramentas em silêncio enquanto o ministro de plantão ainda monta o grupo de trabalho para "estudar o fenômeno".
O detalhe que escapa aos comentaristas de banco é simples. Produtividade não se decreta, não se subsidia e não se planeja em comitê. Ela surge quando o sujeito que vende parafuso descobre que pode atender o triplo de clientes com a mesma mesa, quando o contador automatiza em uma tarde o que demorava uma semana, quando a pequena clínica do interior passa a ler exames com a mesma precisão de hospital paulistano. Nenhum desses ganhos passou por audiência pública, nenhum foi aprovado por marco regulatório, e é exatamente por isso que está funcionando. Toda vez que alguém em Brasília coçar a caneta para "organizar o setor", lembre-se: o que se vê é a regulamentação anunciada em coletiva; o que não se vê é o ganho que deixou de existir porque o empreendedor desistiu antes de começar.
Há também o lado feio, o do dinheiro. Quando uma transformação dessa magnitude aparece no horizonte, o instinto do Estado moderno não é celebrar, é fatiar. Já se ouvem os primeiros tambores: imposto sobre IA, taxa sobre automação, "contribuição" para fundo de transição, cota obrigatória, reserva de mercado para campeão nacional. Siga o dinheiro e você encontra o roteiro de sempre, o lobista pedindo proteção contra o concorrente mais eficiente, o burocrata pedindo orçamento para fiscalizar o que não entende, o político pedindo voto em troca de "defender o trabalhador" da mesma ferramenta que poderia dobrar o salário real desse trabalhador em cinco anos.
E aqui mora a peça mais cínica do teatro. Os mesmos que durante décadas lamentaram a baixa produtividade brasileira, que escreveram teses sobre o "custo Brasil", que organizaram seminários sobre competitividade regados a vinho importado pago com dinheiro público, agora torcem o nariz quando a produtividade aparece sem pedir licença. Por quê? Porque produtividade que brota do mercado não gera cargo de confiança, não gera secretaria, não gera programa com sigla de quatro letras. Ela enriquece quem trabalha e empobrece quem vive de intermediar. Eis o pecado original aos olhos da casta.
Vale ainda lembrar a velha cantilena da janela quebrada, agora em versão tecnológica. Vão dizer que a IA "destrói empregos" e que cabe ao governo "proteger" o trabalhador. É a mesma lógica de quebrar vitrines para aquecer a indústria de vidraceiros. O emprego que some na planilha do dia seguinte é visível; os três empregos novos, mais produtivos e mais bem pagos, que surgem dois anos depois em setores que ainda nem existem, esses são invisíveis, e portanto não rendem manchete nem ato em praça pública. O resultado de proteger o passado é sempre o mesmo: o país vira museu enquanto os outros viram fábrica.
Por fim, fica a pergunta que nenhum economista oficial vai fazer em rede nacional. Se as estimativas erraram por um fator de dez, em que mais elas estão errando? No cálculo da dívida sustentável? No tamanho do rombo previdenciário? No impacto real da próxima rodada de gastança eleitoral? Quando o modelo erra a favor, comemora-se a "boa notícia". Quando erra contra, descobre-se de repente que "ninguém poderia prever". Modelos macroeconômicos viraram horóscopo com gravata, e quem paga a consulta é sempre o mesmo: você, no supermercado, no posto, no boleto. A revolução de produtividade está em curso. A única dúvida é se vai chegar ao seu bolso antes de o Estado descobrir como interceptá-la no caminho.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.