As bolsas europeias fecharam o dia praticamente estáveis, com ganhos em automóveis e produtos químicos compensando o nervosismo provocado pela guerra que se arrasta no Leste do continente. Posto assim, parece notícia técnica, quase entediante. Mas pare um segundo e olhe o absurdo: o continente está em conflito aberto, com energia racionada, indústria pesada agonizando sob o peso dos próprios subsídios verdes, e o índice fecha no zero a zero. Não é resiliência, é morfina. Quando o paciente para de gemer, nem sempre é porque sarou, às vezes é porque desistiu.

Olha, ganho em montadoras europeias no atual contexto não é sinal de saúde econômica, é sinal de socorro disfarçado. Cada euro que sobe na cotação da Volkswagen, da Stellantis ou da BMW carrega nas costas algum pacote bilionário de incentivo a carro elétrico, alguma tarifa punitiva contra concorrente chinês, alguma renúncia fiscal que o contribuinte alemão paga sem nem saber que está pagando. O que se vê é a ação subindo na tela. O que não se vê é o pequeno empresário de Munique fechando porque sua conta de luz triplicou para que a indústria pesada continuasse competitiva no papel.

O setor químico então é caso à parte, quase didático. Empresa química depende de gás barato, e gás barato na Europa virou item de museu desde que decidiram, num arroubo moral coletivo, cortar o fornecedor russo sem ter substituto pronto. Resultado: BASF mudando produção para fora do continente, demitindo aos milhares, e ainda assim o setor sobe na bolsa porque algum analista decidiu que o pior já passou. Já passou coisa nenhuma. O que passou foi a capacidade da indústria europeia de competir sem mamadeira estatal, e o que vem aí é a conta dessa farra que ninguém quer abrir.

Me diz uma coisa, desde quando guerra prolongada é compatível com mercado estável? A resposta sincera é desde que os bancos centrais aprenderam a esconder a verdade com liquidez. O BCE continua sentado em cima de uma montanha de dívida pública que comprou para salvar governos perdulários, e enquanto a impressora funcionar, o preço dos ativos vai flutuar num universo paralelo onde a realidade não entra. É um teatro caro, encenado para que ninguém perceba que o palco está em chamas. A plateia aplaude, os atores agradecem, e a fumaça sobe pela cortina.

O detalhe mais cínico é a expressão favorita do noticiário, aquela tal de incerteza da guerra, como se a guerra fosse fenômeno climático, algo que aconteceu sozinho. Não aconteceu sozinho. Houve decisão política deliberada de transformar conflito regional em guerra de atrito continental, houve escolha consciente de bancar exército alheio com dinheiro dos europeus comuns, houve aposta calculada de que o cidadão pagaria a conta calado. E está pagando. A bolsa estável é o termômetro dessa passividade, não da prosperidade.

Quando uma sociedade aceita que sua indústria sobreviva apenas por subsídio, sua energia venha apenas por benevolência geopolítica, e sua bolsa suba apenas por liquidez fabricada, ela já não tem economia, tem encenação. E toda encenação, mais cedo ou mais tarde, acaba quando alguém apaga as luzes. O pregão de hoje fechou no zero, mas o saldo civilizacional fechou bem mais baixo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.