O dado saiu com aquela solenidade estatística de sempre. Gastos dos consumidores holandeses subiram 1,2% em julho na comparação anual, e os analistas de plantão correram para chamar isso de sinal de vigor econômico. Vigor de quê, exatamente? Ninguém explica. A conta é simples e desconfortável: quando o consumo cresce enquanto a produtividade patina e a poupança encolhe, o que se está celebrando não é riqueza nova, é riqueza futura sendo antecipada no cartão, no financiamento, na expansão de crédito que algum banco central abençoou meses atrás.
Olha, existe uma confusão fundamental que atravessa toda a imprensa econômica contemporânea, e ela consiste em tratar consumo como causa da prosperidade, quando consumo é consequência. Quem produz, poupa. Quem poupa, investe. Quem investe, gera capacidade produtiva. Só então se consome, e se consome mais porque se produziu mais. Inverter essa ordem, e fingir que gastar é o motor da roda, é o tipo de raciocínio que soa sofisticado em coluna de jornal e destrói economias inteiras quando aplicado por bancos centrais. Os Países Baixos, com sua tradição mercantil de séculos, sabem disso melhor do que qualquer keynesiano de repartição, mas o vício da métrica insiste em premiar quem gasta o que não tem.
Me diz uma coisa: em algum momento alguém foi checar o quanto desse consumo é crédito rotativo, financiamento habitacional em taxa artificialmente comprimida pelo Banco Central Europeu, ou simplesmente inflação nominal disfarçada de crescimento real? Porque quando a energia sobe, o aluguel sobe, o supermercado sobe, e o consumidor gasta 1,2% a mais só para comprar a mesma cesta, isso não é expansão econômica, é encolhimento com maquiagem estatística. A diferença entre consumo real e consumo nominal é a diferença entre saúde e febre, e a manchete não distingue as duas.
Siga o dinheiro e o retrato fica mais nítido. Toda essa "confiança do consumidor" holandesa flutua no oceano de liquidez que Frankfurt despejou durante uma década, e ainda continua despejando com nomes criativos toda vez que a bolha ameaça desinflar. O crédito barato empurra o holandês médio a antecipar a reforma da cozinha, o carro elétrico subsidiado, a viagem parcelada, e depois vem o economista de gravata chamar isso de dinamismo. Dinamismo é quando alguém trabalha, produz, poupa e escolhe gastar o próprio. O que se vê hoje na Europa é festa financiada pelo depósito compulsório dos aposentados e pela erosão silenciosa do poder de compra de quem não tem acesso ao crédito subsidiado.
E aqui entra a parte que ninguém quer discutir. Cada ponto percentual de consumo "estimulado" tem um custo invisível que só aparece dois, três, cinco anos depois, quando a taxa sobe, o refinanciamento fica caro, o consumidor descobre que a alegria de julho foi hipotecada em setembro do ano seguinte, e o mesmo economista que hoje bate palma vai aparecer na televisão explicando que a recessão é inexplicável, veio do nada, é culpa da guerra, do clima, do vírus, do vizinho. A verdade é mais simples: toda expansão artificial cobra a fatura, e a fatura sempre chega para quem menos participou da festa.
Os Países Baixos construíram um dos maiores patrimônios comerciais da história moderna com o oposto exato do que agora se celebra: prudência, poupança, produção, cálculo. Trocaram isso pela mesma cartilha continental de estimular consumo para inflar PIB e inflar PIB para justificar mais estímulo. É um cachorro correndo atrás do próprio rabo, e enquanto ele corre, o burocrata em Bruxelas anota o movimento e escreve um relatório dizendo que o cachorro está progredindo. Progredindo para onde, ninguém sabe. Mas o relatório fica bonito, e é o que importa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.