O Google anunciou uma nova função para o Gemini embutido no Chrome chamada "Skills", que permite ao usuário transformar sequências complexas de comandos em atalhos reutilizáveis no painel lateral do navegador. O recurso está sendo liberado gradualmente para desktops com Windows, macOS e ChromeOS, inicialmente apenas em inglês dos Estados Unidos. Na superfície, parece uma melhoria legítima de produtividade. Mas quando a empresa que fatura dezenas de bilhões de dólares por ano vendendo seus dados de navegação oferece algo de graça, convém examinar o presente com mais cuidado do que o papel de embrulho.

A lógica é engenhosa e, justamente por isso, merece desconfiança. Ao criar "Skills" personalizadas, o usuário ensina ao Gemini seus padrões de trabalho, suas rotinas, seus atalhos mentais, o tipo de tarefa que repete, a linguagem que usa para descrever seus problemas. Isso não é um assistente. Isso é um raio X comportamental embutido na ferramenta que você já usa oito horas por dia. É como se alguém instalasse um confessionário dentro do seu escritório e dissesse que é apenas uma cabine de produtividade. Cada "Skill" criada é um mapa novo da sua mente entregue de bandeja a uma corporação que já sabe onde você mora, o que compra, o que lê e com quem se comunica.

O mais revelador é o que não foi dito no anúncio. Não há menção a onde esses dados de "Skills" são armazenados, quem tem acesso a eles, se alimentam modelos de treinamento, se são compartilhados com anunciantes. O silêncio sobre privacidade numa empresa que já foi condenada por rastrear usuários no modo anônimo do próprio Chrome não é descuido, é método. A mesma empresa que removeu resultados de busca a pedido de governos, que ajustou algoritmos para suprimir determinados conteúdos em anos eleitorais, agora quer morar dentro do seu fluxo de trabalho. Não como ferramenta, mas como intermediária obrigatória entre você e sua própria capacidade de pensar.

Existe uma diferença fundamental entre tecnologia que amplia a capacidade humana e tecnologia que a substitui para depois cobrar aluguel. Um bom software é como uma boa ferramenta de oficina: você pega, usa e guarda, sem que ela precise saber o que você está construindo. O que o Google propõe com o Gemini no Chrome é o oposto. É uma ferramenta que só funciona enquanto você a alimenta, que melhora conforme você se expõe, que se torna indispensável na mesma velocidade em que se torna insubstituível. Na história das revoluções tecnológicas, toda vez que uma inovação prometeu liberdade e entregou dependência, o preço foi pago pela geração seguinte, quando já era tarde demais para voltar atrás.

O Brasil, como de costume, vai receber o recurso meses depois, traduzido às pressas e sem qualquer debate sobre implicações. Nossos veículos de tecnologia vão celebrar a novidade com o entusiasmo acrítico de quem confunde lançamento de produto com progresso civilizacional. Enquanto isso, ninguém pergunta por que não investimos em alternativas abertas, em navegadores que não pertencem a impérios publicitários, em modelos de linguagem que rodem localmente sem mandar cada vírgula para um servidor na Virgínia. Produtividade de verdade não se mede pela velocidade com que você obedece a uma máquina, mas pela liberdade que você mantém enquanto a utiliza.

Com informações da Canaltech. A análise e opinião são do O Algoz.