A General Dynamics recebeu mais US$ 273 milhões da Marinha dos Estados Unidos em um novo pacote de contratos. A notícia foi recebida com a habitual solenidade dos comunicados de imprensa, cheios de jargão técnico sobre "capacidades estratégicas", "sustentação de sistemas" e "soberania nacional". Traduzindo: o governo americano transferiu mais um quarto de bilhão de dólares para os mesmos acionistas de sempre, pelos mesmos motivos vagos de sempre, pelo mesmo processo opaco de sempre. Nada de novo. A roda gira, e ela gira bem oleada.

Siga o dinheiro, porque ele nunca mente. A General Dynamics é uma das cinco ou seis empresas que dominam o mercado de defesa americano há décadas, num arranjo que seria chamado de oligopólio em qualquer outro setor e que neste setor recebe o nome bonito de "base industrial de defesa". Essas empresas não competem entre si no sentido que qualquer consumidor entende por competição. Elas dividem contratos, giram executivos entre o Pentágono e seus próprios conselhos, financiam campanhas dos congressistas que aprovam os orçamentos e, no final do ciclo, depositam o dividendo na conta certa. É um sistema fechado, autoalimentado e perfeitamente legal, porque quem faz as leis é quem se beneficia das leis.

O que raramente aparece na cobertura financeira é o custo real desses contratos. O que se vê é o número: US$ 273 milhões, "contrato da Marinha", GD sobe na bolsa. O que não se vê é o engenheiro que deixou de ser contratado numa pequena empresa de tecnologia porque o capital está represado em subsídios militares; o hospital público que não foi construído; a estrada que continua com buracos; o jovem americano que paga imposto a vida inteira para financiar sistemas que nunca verá, em guerras que talvez nunca aconteçam, para inimigos que são frequentemente inventados ou exagerados para justificar a próxima rodada de contratos. O ciclo se fecha perfeitamente, e sempre às custas de alguém que não foi convidado para a reunião.

Não se trata de antimilitarismo barato. Uma nação precisa de defesa, e defesa custa dinheiro real. O problema não é gastar com a Marinha. O problema é este arranjo específico em que um punhado de corporações gigantes capturou o processo decisório a tal ponto que "necessidade estratégica" e "interesse corporativo" se tornaram sinônimos funcionais. Quando um único fornecedor domina uma categoria de produto por décadas, sem concorrência real, sem pressão de custo, sem mecanismo de mercado que force eficiência, o resultado inevitável é exatamente o que vemos: contratos que crescem, custos que nunca caem, prazos que sempre estouram, e lucros que nunca faltam. O risco é socializado; o retorno é privatizado. Esta fórmula tem nome, e não é capitalismo.

Há uma ironia pesada no fato de que este setor, que mais defende a livre iniciativa e os "valores americanos" em seus materiais de relações públicas, seja provavelmente o mais afastado de qualquer lógica de mercado livre que existe na economia americana. Um mercado de verdade tem entrada de novos competidores, tem transparência de preços, tem consumidor que pode escolher não comprar. O mercado de defesa não tem nenhum dos três. O comprador é obrigado a comprar, com o dinheiro de contribuintes que não foram consultados, de fornecedores que foram pré-selecionados por critérios que incluem, entre outros, a qualidade do lobby em Washington. Chame isso do que quiser. Livre mercado, não é.

US$ 273 milhões é uma quantia que a maioria das pessoas não consegue visualizar. É o tipo de número que sai nas notícias e desaparece em quarenta e oito horas, substituído pelo próximo contrato, pelo próximo comunicado, pela próxima rodada de solenidade corporativa. Mas representa trabalho real de pessoas reais, confiscado compulsoriamente e repassado a um grupo muito pequeno de acionistas e executivos muito bem pagos. Repita este processo algumas vezes por semana, cinquenta e duas semanas por ano, há décadas, e você começa a entender por que o orçamento de defesa americano supera o dos dez países seguintes combinados, por que a dívida pública americana beira os US$ 37 trilhões, e por que ninguém em Washington parece se importar com isso. Eles sabem exatamente onde o dinheiro vai parar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.