A Genflow Biosciences anunciou que sua terapia genética experimental atingiu o endpoint primário num estudo com cães idosos, entregando marcadores de rejuvenescimento em animais que, biologicamente falando, já estavam de bengala. Traduzindo o comunicado corporativo para o português dos mortais: pegaram uma variante centenária do gene SIRT6, meteram num vetor viral, aplicaram no bicho e o organismo respondeu como se tivesse voltado alguns anos no calendário. Cão idoso é o primeiro degrau; o alvo declarado, todo mundo sabe, é o bípede que paga a conta.
Repare no arranjo, porque ele diz tudo. Não foi um instituto federal de pesquisa, financiado com bilhões de imposto e povoado por doutores concursados, que entregou o resultado. Foi uma empresa pequena, listada em bolsa, queimando capital de risco de investidor privado que aceitou perder tudo se der errado. O sujeito que arriscou o próprio dinheiro entregou o que décadas de orçamento público em gerontologia não entregaram. Isso não é coincidência, é a estrutura de incentivos falando mais alto que qualquer discurso de campanha.
E aqui o que se vê é a manchete bonita; o que não se vê é a fila de terapias que morreram antes de nascer, sufocadas por protocolos regulatórios desenhados nos anos setenta para um mundo que já não existe. Cada ano a mais de exigência burocrática antes de um ensaio clínico é um ano a mais de gente morrendo do que a molécula parada na gaveta talvez curasse. A conta dos mortos invisíveis nunca aparece no relatório da agência sanitária, mas ela existe, e é astronômica. O burocrata que atrasa a aprovação nunca é responsabilizado pelo velhinho que não chegou vivo até o remédio.
Siga o dinheiro e o quadro fica ainda mais claro. Quando essa terapia sair do cachorro e entrar no humano, os primeiros a comprar serão os ricos, e é aí que o coro igualitário vai gritar privilégio, elitismo, apartheid biológico. Só que é exatamente assim que toda tecnologia funciona: celular era de banqueiro em oitenta e nove, hoje o entregador tem um melhor que o do banqueiro daquela época. Rico pagando caro pelo protótipo é quem financia o barateamento que chega no pobre dez anos depois. Sem esse mecanismo, ninguém tem nada, e o igualitarismo entrega igualdade na miséria, que é a única igualdade que o Estado sabe produzir.
O detalhe mais delicioso é geográfico. A pesquisa não saiu de Brasília, não saiu de Havana, não saiu de nenhuma dessas capitais onde o Estado supostamente cuida de tudo. Saiu de uma jurisdição onde ainda sobrou algum resquício de mercado de capitais funcional e algum resto de tolerância regulatória para experimentação. O Brasil, enquanto isso, discute cota em conselho de biotecnologia e comitê de ética composto por sociólogo. Nossa contribuição para a longevidade humana no século vinte e um vai ser a fila do posto de saúde e o formulário em três vias para receber o antiinflamatório genérico.
A lição atravessa o balcão da farmácia e chega na filosofia mais básica de organização social. Toda vez que a humanidade deu um salto real, foi porque alguém, arriscando o próprio pescoço e o próprio capital, contrariou o consenso e o comitê. A cura da velhice, se vier, não virá por decreto ministerial nem por plano quinquenal; virá de um laboratório pequeno, dirigido por um obsessivo, financiado por investidor doido, operando na brecha que o regulador ainda não conseguiu fechar. O resto é ruído de assessoria de imprensa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.