A Genius Sports anunciou a conclusão da aquisição da rede de mídia Legend e a notícia passou pelos terminais como passa qualquer fusão corporativa nesses dias, com aquele ar de rotina que disfarça o que realmente está acontecendo. O que está acontecendo é simples de descrever e desconfortável de admitir: a empresa que fornece dados oficiais para as principais ligas esportivas do mundo, que vende esses dados para casas de apostas, que monetiza propaganda dentro das transmissões, agora também é dona da rede que distribui o conteúdo que molda o apetite do apostador. Tudo dentro da mesma holding, tudo na mesma planilha de receita, tudo apontando para o mesmo bolso.
Olha, quando alguém integra verticalmente a cadeia inteira que vai do dado ao olho do consumidor, não está construindo eficiência, está construindo funil. O Legend produzia conteúdo esportivo voltado para apostadores, a Genius já controla a infraestrutura de odds e o feed que alimenta os bookmakers, e agora as duas pontas conversam sem intermediário. O sujeito que assiste ao vídeo, lê a análise, recebe a estatística e vê a propaganda da casa de apostas está consumindo um produto cuja única finalidade econômica é tirá-lo do conforto da poltrona e levá-lo até o botão verde. E ele acha que está se divertindo.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que existe jornalismo esportivo nesse arranjo? A peça de mídia que parece análise honesta sobre o próximo jogo é, na prática, isca de conversão calibrada por alguém que ganha quando você aposta e ganha de novo quando você perde. O que se vê é o conteúdo gratuito, a estatística bonita, o gráfico animado. O que não se vê é o desenho industrial que transforma cada minuto de atenção em centavos extraídos de quem nunca leu um balanço da Genius Sports e jamais vai ler. A mão que entrega o entretenimento é a mesma mão que segura o cassino, e essa mão aprendeu há tempos que não precisa ser visível para ser eficaz.
O paralelo histórico é clássico e quase entediante de tão repetido. Quando uma indústria descobre que pode controlar simultaneamente a fábrica, o atacado, o varejo e a propaganda do produto, ela para de competir por preço e passa a competir por dependência. Foi assim com o tabaco antes da regulação tardia, foi assim com certos conglomerados de mídia que viraram porteiros do que o público podia ou não saber, e está sendo assim com o complexo de apostas online que cresceu na sombra regulatória dos últimos anos enquanto os formuladores de política pública ainda discutiam se isso era um problema. Não é coincidência que o setor passe a ter capitalização de bilhões justamente quando a fronteira entre conteúdo, dado e aposta se dissolve.
Aqui no Brasil o cenário é ainda mais constrangedor, porque a regulamentação chegou correndo, mal feita, costurada para arrecadar primeiro e fiscalizar depois, com o Estado mais interessado em raspar imposto da banca do que em entender o que está acontecendo com o salário do trabalhador que descobre o aplicativo no domingo à noite. Cada movimento de consolidação global como essa aquisição reforça oligopólios que vão operar no mercado brasileiro com vantagem informacional gigantesca sobre concorrentes locais e sobre o próprio apostador. E o discurso oficial vai continuar repetindo que regulamentar é proteger o consumidor, quando na verdade regulamentar do jeito que foi feito é dar carimbo de legitimidade para uma engrenagem que já vinha rodando sem ele.
No fim, a aquisição da Legend pela Genius Sports não é notícia de caderno de negócios, é capítulo de antropologia econômica do nosso tempo. Estamos diante de uma indústria que aprendeu a vender simultaneamente o sonho, a estatística do sonho, a transmissão do sonho e o boleto do sonho, sempre embrulhada em linguagem técnica de fusão e sinergia para que ninguém pergunte a coisa óbvia. A coisa óbvia é que quando o mesmo grupo controla o que você vê, o que você acredita e onde você clica, o resultado já estava decidido antes de você ligar a televisão.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.