A notícia veio embrulhada em papel de presente. As exportações alemãs reagiram, o gasto público deu um empurrão, o PIB respirou, e a manchete tratou de vender o pacote como sinal de vida da economia mais importante da Europa. O detalhe que ninguém grifa, claro, é a frase escondida no final: tudo isso antes da guerra com o Irã bater na porta. Quer dizer, o "crescimento" tem prazo de validade impresso na embalagem, e o consumidor da notícia é convidado a comemorar o iogurte vencido como se fosse champanhe.

Olha, há um vício analítico na Europa que merece nome e endereço. Trata-se de chamar de produtividade aquilo que é, em essência, antecipação. Quando o Estado abre a torneira do gasto, encomenda obra, contrata fornecedor, subsidia setor estratégico e ainda empurra crédito barato pelo sistema bancário, o que se vê nas estatísticas trimestrais não é a economia produzindo mais. É a economia gastando mais. São coisas diferentes, e confundi-las é o pecado original de quase toda análise macroeconômica que sai dos bancos centrais e das redações de Frankfurt.

Repare na anatomia do truque. As exportações sobem porque o euro segue artificialmente espremido por uma política monetária que beneficia o exportador alemão e penaliza o poupador grego, italiano, português. O gasto estatal sobe porque Berlim destravou trilhões em endividamento sob o argumento elástico da segurança e da transição verde. O resultado, somado no caixa do trimestre, parece vigor. Mas vigor de quem? Da fábrica que vende ou do contribuinte que financia? Da empresa que produz ou do banco central que distorce o preço do dinheiro até que ninguém mais saiba quanto vale poupar? O que se vê na manchete é o exportador sorrindo. O que não se vê é o aposentado alemão tendo seu patrimônio corroído para sustentar o sorriso.

Há também a questão geopolítica, que a reportagem trata como nota de rodapé e merecia ser o título. Toda essa pujança trimestral foi medida antes do conflito com o Irã derrubar a previsibilidade do petróleo, das cadeias logísticas e dos contratos de longo prazo. Uma economia robusta resiste a choques. Uma economia dopada com estímulo fiscal e exportação dependente de mercado externo se desmancha no primeiro vento contrário. Berlim não construiu solidez, construiu uma performance trimestral, e performance trimestral é o que se exige de ator, não de país sério.

Vale lembrar o padrão histórico, porque ele se repete com a teimosia de quem nunca aprende. Sempre que um governo precisa justificar a expansão do próprio tamanho, aparece um indicador animador no horizonte de noventa dias. Sempre que esse indicador anima, vem junto a justificativa para gastar ainda mais. E sempre, sem exceção, quando o vento muda e a conta chega, descobre-se que o crescimento celebrado era apenas a sombra projetada por uma dívida que ninguém quis nomear. A Alemanha de hoje está repetindo, com sotaque diferente, o erro que os mediterrâneos cometeram nos anos dois mil e que custou uma década de austeridade depois.

Crescer porque o Estado gastou e porque a moeda foi artificialmente domada não é crescer, é adiar. Quem confunde adiamento com prosperidade está apenas escolhendo em qual trimestre futuro vai chorar. A Alemanha escolheu chorar mais tarde. Vai chorar.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.