A notícia chega com aquele tom de indignação fingida que a imprensa financeira aprendeu a fabricar nas redações de Londres e Nova York. A Glencore, gigante suíça do trading de commodities, está caminhando para um dos seus melhores anos de todos os tempos porque sua mesa de petróleo e gás faturou rios de dinheiro com a guerra entre Israel e Irã. O leitor é convidado, sem que ninguém precise dizer com todas as letras, a torcer o nariz. Como ousa alguém lucrar enquanto refinarias ardem e tankers desviam rota pelo Cabo da Boa Esperança? A pergunta correta, no entanto, é outra: como ousa alguém fingir surpresa?
Trader de commodity não fabrica guerra, não dispara míssil, não sabota oleoduto. Ele faz uma coisa só, e essa coisa é socialmente útil até quando ninguém quer admitir. Ele lê sinais dispersos pelo planeta inteiro, sinais que nenhum ministro, nenhum banco central, nenhum think tank de Washington consegue agregar a tempo, e traduz tudo isso em preço. Quando o Estreito de Ormuz fica perigoso, alguém precisa dizer ao motorista de caminhão na Baviera, ao dono de padaria em Belo Horizonte, ao operador de termoelétrica em Manila que o barril ficou mais caro. Esse alguém é o preço, e o preço só se move porque há gente apostando capital próprio na leitura do risco. Quem acerta, lucra. Quem erra, quebra. A Glencore acertou.
Aqui mora o ponto que os moralistas de plantão nunca enfrentam de frente. O lucro do trader não é causa do encarecimento, é sintoma. O encarecimento é causa de outra coisa, anterior, mais feia, e essa coisa se chama guerra, escassez real, infraestrutura ameaçada, navios desviados, prêmio de risco geopolítico inflado por décadas de aventureirismo militar de potências que adoram pregar paz nos discursos da ONU enquanto vendem caça-bombardeiro a quem paga. Atacar o trader que precifica o caos é como xingar o termômetro porque o paciente está com febre. Quebra o termômetro, a febre continua, e agora ninguém mais sabe o tamanho dela.
Vale seguir o dinheiro de verdade, porque ele nunca dorme. Quem realmente embolsa o que o consumidor paga a mais no posto? Uma fatia vai para os traders, sim, e essa é a parte que vira manchete. Outra fatia, muito maior e bem menos comentada, vai para os tesouros nacionais sob a forma de imposto sobre combustível, royalty de petróleo estatal, dividendo de empresa pública. O governo brasileiro, para ficar em casa, é o maior beneficiário individual de cada centavo que sobe na bomba, e ainda tem a coragem cênica de culpar a Petrobras, o cartel internacional, o especulador estrangeiro. A Petrobras é o cartel. O especulador é o tesouro. O resto é teatro para iludir o eleitor que não sabe ler nota fiscal.
Há ainda a camada cultural do escândalo, que merece comentário próprio. Vivemos numa época em que se exige da empresa privada uma santidade que jamais se exige do poder público. Espera-se que a Glencore prejudique a si mesma para parecer bem na fita, enquanto se aceita com naturalidade que ministros de relações exteriores apoiem regimes assassinos por conveniência diplomática, que bancos centrais imprimam moeda para financiar guerras alheias, que parlamentares votem subsídios bilionários para amigos. O empresário lucrando dentro da lei é vilão. O burocrata redistribuindo o seu dinheiro fora dela é estadista. A inversão é tão grosseira que precisa ser repetida todo dia para se manter de pé, e a imprensa financeira faz sua parte com diligência exemplar.
Fica a lição que ninguém quer aprender. Mercado livre não é arranjo bonito, é arranjo honesto. Ele não esconde o conflito do mundo sob retórica humanitária; ele o precifica em tempo real e obriga cada um a encarar o custo real de cada decisão. Se a guerra do Irã encarece o diesel, é porque a guerra do Irã encarece o diesel, ponto, e quem trouxer essa informação primeiro merece o lucro de tê-la trazido. O dia em que a humanidade quiser preços mais civilizados, terá que produzir uma civilização mais civilizada. Atirar no trader é fácil; sair da barbárie geopolítica que cria o lucro do trader é que dá trabalho, e por isso ninguém quer.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.