Existe uma cena que se repete na história econômica com a regularidade de uma peça de teatro mal escrita: algo explode, os mercados entram em pânico, e então uma coorte de tecnocratas bem-pagos convoca uma reunião urgente para "avaliar os danos". O Fundo Monetário Internacional fará exatamente isso nas próximas semanas em Washington, reunindo ministros de finanças e presidentes de bancos centrais para discutir o impacto da guerra com o Irã, que fechou o Estreito de Ormuz e gerou, segundo a Agência Internacional de Energia, a maior disrupção de oferta de petróleo da história do mercado global. A cena seria cômica se o preço não fosse pago pelo trabalhador que abastece o carro e descobre que a gasolina cruzou a barreira dos quatro dólares nos Estados Unidos, enquanto o Brent subiu mais de 25% desde o início do conflito e analistas sérios já estimam que pode chegar a cem dólares o barril caso as perturbações continuem.

O que os comunicados oficiais não vão dizer, e o que você precisa entender antes de qualquer coisa, é o seguinte: uma guerra não cria um problema econômico do zero. Ela detona uma carga que já estava ali, enterrada sob camadas de política monetária frouxa, déficits acumulados e a ilusão coletiva de que imprimir dinheiro é uma forma de criar riqueza. Em janeiro deste ano, o próprio FMI havia projetado crescimento global de 3,3% e cogitava revisar o número para cima, como se os últimos anos de expansão de crédito tivessem sido conquistas sólidas e não uma festa cujo fim era apenas questão de quando. O conflito foi o "quando". Agora a diretora do Fundo admite, sem piscar, que a previsão será rebaixada, e que "sem esse choque, teríamos revisado o crescimento para cima". Tradução: construímos a casa em terreno instável, chegou o terremoto, e agora discutiremos a arquitetura.

O Estreito de Ormuz não é um detalhe geográfico obscuro. É a garganta pela qual passa 20% do petróleo mundial e volumes expressivos de gás natural liquefeito. Quando o Irã fechou o Estreito, não foi apenas uma manobra militar: foi a demonstração de que toda a sofisticação dos mercados financeiros modernos, com seus derivativos e hedges e instrumentos de proteção, continua absolutamente dependente de uma faixa de água de 33 quilômetros de largura no Golfo Pérsico. Os anos 1970 ensinaram essa lição da forma mais brutal possível, com filas de carros nos postos de gasolina e uma estagflação que demorou uma década para ser debelada, e custou anos de recessão deliberada para ser controlada. A diferença é que, nos anos 1970, os bancos centrais ao menos tinham espaço para apertar o crédito drasticamente. Hoje chegam à crise com balanços inchados, taxas que já corriam elevadas e economias que desenvolveram dependência clínica de dinheiro barato.

Siga o dinheiro, porque isso sempre clareia a mente. O petróleo a cem dólares o barril significa transferência maciça de renda de consumidores e países importadores para produtores que não fecharam o Estreito, principalmente os do Golfo que não são o Irã, e para as grandes tradings e especuladores que apostaram na alta antes do conflito escalar. Significa que a inflação, que nos Estados Unidos já corre a 3% ao ano, bem acima da meta do Federal Reserve, vai continuar pressionada por via energética muito depois de qualquer cessar-fogo. Na zona do euro, já está em mais de 4%. No mundo real, o nome disso é estagflação: crescimento em queda, preços em alta. É o pior dos dois mundos, e é exatamente o cenário que as políticas dos últimos quinze anos tornaram mais provável, não menos.

Me diz uma coisa: o que exatamente se resolve numa reunião do FMI em Washington? Ministros e banqueiros centrais se sentarão em torno de mesas envernizadas, trocarão projeções que serão revistas na semana seguinte, emitirão comunicados cheios de "monitoraremos de perto" e "responderemos conforme necessário", e então volarão de volta para seus países enquanto o motorista de aplicativo no Cairo, o pequeno industrial em São Paulo e o agricultor na Índia pagam uma conta que ninguém naquela sala vai dividir. A reunião não existe para resolver o problema, existe para sinalizar ao mercado que existe um adulto na sala. O problema é que os adultos da sala são os mesmos que expandiram a oferta monetária globalmente por anos a fio, chamaram de "transitória" uma inflação que durou anos, e agora descobrem, com genuína surpresa estampada no rosto, que guerras em pontos estratégicos do planeta têm consequências energéticas. A conta, como em toda crise, será paga por quem não votou no problema e não foi convidado para a reunião.

O que vem por aí não é um "choque exógeno" que a economia global vai absorver e superar rapidamente, como o jargão técnico gosta de sugerir. É a convergência de décadas de política monetária irresponsável com uma crise geopolítica real, em um momento em que os bancos centrais estão sem munição e os governos sem espaço fiscal. Guerras terminam. Inflação estrutural demora a morrer. E a próxima vez que um burocrata usar a palavra "transitório" em referência a qualquer coisa, coloque a mão no seu bolso, porque é lá que a previsão vai acertar.

Com informações do Financial Times. A análise e opinião são do O Algoz.