O número é constrangedor para quem passou os últimos anos vendendo a Índia como a próxima China, só que com democracia, demografia jovem e PowerPoint em inglês. Os investidores estrangeiros sacaram tanto capital da bolsa indiana que o estoque líquido acumulado de aportes recuou ao menor nível em quase uma década. Em bom português, uma geração inteira de entusiasmo evaporou em poucos trimestres de venda contínua, e o mercado de 4,9 trilhões de dólares que era manchete de revista de aeroporto agora aparece nos relatórios como zona de realocação.
Vale parar um segundo e olhar para o que não se vê. O que se vê é o índice, a manchete, o ministro da Fazenda em entrevista dizendo que os fundamentos continuam sólidos, que o crescimento permanece robusto, que a economia indiana é resiliente. O que não se vê é o investidor estrangeiro, que não lê discurso, lê balanço, comparando o preço pago por uma ação indiana ao preço pago por uma chinesa, uma coreana, uma japonesa, e descobrindo que estava pagando prêmio de grife para comprar lucro de feira. Quando o múltiplo descola da realidade, a realidade volta cobrando juros.
Há também a parte mais delicada, que ninguém em Mumbai gosta de discutir em voz alta. A festa anterior foi inflada por aquela bolha global de liquidez que bancos centrais criaram apertando o botão da impressora durante anos, jogando dinheiro barato em qualquer mercado emergente que tivesse uma narrativa decente. Não era amor pela Índia, era fuga do rendimento zero no mundo desenvolvido. Quando o juro nos Estados Unidos voltou a pagar algo decente, o romance acabou na mesma velocidade com que começou, e cada ponto percentual a mais no Treasury americano foi uma facada no múltiplo das bolsas emergentes. O capital não tem pátria, tem calculadora.
Some a isso o pequeno detalhe que os otimistas adoram ignorar, a saber, que o governo indiano gastou os últimos anos empilhando regulação, mexendo em regras tributárias retroativamente, expandindo subsídio setorial via produção incentivada e turbinando campeões nacionais escolhidos a dedo. Cada uma dessas medidas foi vendida como modernização, política industrial, soberania produtiva, e cada uma delas, na ponta, é a velha aliança entre burocrata e bilionário amigo, decidindo quem ganha e quem perde no lugar do consumidor. Mercado capturado por arranjo político pode subir por um tempo, mas o investidor sério, aquele que move bilhões, cedo ou tarde lê o balanço por trás da bandeira e percebe que está financiando privilégio, não produtividade.
A lição, que serve para Brasília tanto quanto para Nova Délhi, é simples e desconfortável. Não existe milagre econômico sustentado por liquidez emprestada, narrativa de consultoria e proteção estatal a campeões nacionais. Existe poupança real, propriedade respeitada, contrato cumprido, imposto baixo, regra estável e juro determinado por gente que arrisca o próprio dinheiro, não por comitê que arrisca o dinheiro dos outros. Tudo o que foge disso é cenário de novela, e novela termina quando o anunciante para de pagar. O anunciante, no caso, era o capital estrangeiro, e ele já desceu do palco.
Resta o de sempre, a saber, ministros explicando que o fluxo vai voltar, analistas locais dizendo que a queda é oportunidade de compra, jornalistas econômicos repetindo o release do banco de investimento como se fosse análise independente. Enquanto isso, o dinheiro, que é silencioso e implacável, já votou com os pés. Bolsa não é termômetro de patriotismo, é placar de confiança, e a Índia acabou de receber uma nota que nenhum discurso vai apagar.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.