A GlobalFoundries divulgou seu balanço e o recado para o mercado foi de receita mais fraca à frente, ações sob pressão, perspectivas revisadas para baixo. A mesma GlobalFoundries que foi celebrada como troféu da política industrial americana, beneficiária generosa do tal CHIPS Act, recebedora de bilhões em incentivos federais para "trazer a fabricação de semicondutores de volta para casa". Pois é. Trouxeram o dinheiro do contribuinte para casa, mas a demanda real do mercado não atendeu o convite.
O enredo é antigo, repetido com figurinos diferentes desde que governos descobriram que podiam brincar de empresário com bolso alheio. Identifica-se um setor "estratégico", inventa-se uma narrativa de segurança nacional, abre-se a torneira de subsídios, e em seguida espera-se que o mercado cumpra o roteiro escrito em Washington. Só que o consumidor de chips não leu o documento. A demanda por semicondutores oscila conforme ciclos reais de inventário, smartphones, automóveis, data centers, e nenhum burocrata sentado num gabinete consegue prever o que milhões de engenheiros e compradores vão decidir no próximo trimestre.
Olha, o ponto que ninguém quer encarar é simples. Subsídio não cria cliente. Subsídio cria capacidade ociosa subsidiada. Quando você bombeia capital artificial num setor, distorce o cálculo econômico de quem está dentro dele, infla expectativas, induz expansão de fábricas que talvez não devessem existir naquele tamanho, naquele lugar, naquela hora. O bust que vem depois do boom subsidiado é mais cruel do que o bust de mercado limpo, porque envolve um custo invisível que ninguém soma na planilha: os bilhões que saíram do bolso do americano comum, que poderiam ter financiado mil outras coisas que o mercado verdadeiramente queria, e que agora viraram capacidade extra de wafers num momento de demanda morna.
Quer dizer, o defensor da política industrial vai aparecer agora dizendo que é "questão de longo prazo", que "leva tempo", que a "soberania tecnológica" justifica qualquer número vermelho no curto prazo. É sempre assim. Quando o subsídio dá certo, o mérito é do planejador iluminado. Quando dá errado, é só esperar mais um ciclo, mais uma rodada de incentivos, mais uma "fase de adaptação". O contribuinte paga a conta enquanto a tese é testada com o dinheiro dele, sem que ninguém tenha pedido sua opinião na assembleia.
Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que a fragilidade dos resultados se resolve com mais dinheiro federal? Porque essa é a próxima cena previsível do filme. Receita fraca vira argumento para nova rodada de incentivos, novo pacote, nova reformulação do programa, e o lobby corporativo já está afiando lápis em K Street para transformar o tropeço da empresa em demanda de bondade fiscal. É a espiral clássica: a intervenção produz a distorção, a distorção produz a próxima intervenção, e o contribuinte vai pagando enquanto a indústria que deveria competir aprende que é mais lucrativo competir por verba pública do que por preferência de cliente.
O recado limpo dos números desta semana é que o mercado de semicondutores responde a leis que nenhum decreto presidencial revoga. Inventário existe, ciclo existe, concorrência asiática existe, e nada disso some porque um senador americano fez discurso bonito sobre soberania tecnológica. Capitalismo de compadrio entre big tech industrial e governo federal produz exatamente isto: empresas que entregam balanços medíocres enquanto entregaram, com louvor, lobby exemplar. A fábrica de chips até pode estar sendo construída no Arizona; a fábrica de dependência política, essa já está em produção plena há tempos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.