A Globant divulgou seu balanço do primeiro trimestre e o mercado fez o que o mercado faz quando descobre que a história contada não bate com a planilha entregue, puniu a ação. A companhia que se vendeu durante anos como a joia latino-americana da inteligência artificial, da transformação digital e de todos os adjetivos da moda agora precisa explicar a investidores por que o crescimento desacelerou, por que as margens encolheram e, principalmente, por que existe um processo judicial coletivo nos Estados Unidos alegando que a empresa teria omitido informações materiais aos acionistas. É o tipo de combinação que transforma reunião de resultados em interrogatório.

Vale lembrar como se chegou aqui. Durante o ciclo de juros zero, qualquer empresa que conseguisse colar a palavra "tech" no nome virava unicórnio. Bancos, fundos e analistas espalhavam relatórios entusiasmados sobre múltiplos que só faziam sentido num mundo onde o dinheiro era de graça e o futuro era sempre maior que o presente. A Globant, com seu modelo de fábrica de software vendendo horas de programador argentino, uruguaio e colombiano para clientes americanos, era apresentada como a prova de que a América Latina finalmente tinha entrado no jogo grande. O problema é que dinheiro barato não cria valor real, apenas o disfarça. Quando o disfarce cai, a fatura aparece.

Siga o caminho do dinheiro e a história fica mais interessante. Quem ganhou nos anos de festa? Executivos exercendo opções em pico histórico, bancos cobrando comissões para colocar a ação em carteiras de fundos, consultorias vendendo a tese da revolução digital e gestores que reembalavam o mesmo papel em produtos cada vez mais sofisticados. Quem paga a conta agora? O cotista do fundo que comprou no topo confiando na narrativa, o aposentado cuja carteira tinha exposição via ETF, o pequeno investidor que ouviu de algum influenciador que aquilo era "a próxima Accenture". A ação judicial nos Estados Unidos é apenas o sintoma jurídico de um sintoma econômico mais profundo, a transferência silenciosa de patrimônio de quem confiou para quem manipulou a narrativa.

Há também um aspecto que ninguém quer discutir, o modelo de negócio em si. Vender hora de programador é um negócio de margem espremida por natureza, porque o insumo principal, o talento humano, é móvel, escasso e cada vez mais caro. Quando surge uma ferramenta que multiplica a produtividade de cada desenvolvedor, o cliente final percebe rapidamente que precisa de menos horas, não de mais. A própria revolução que a empresa vendia como vento a favor é, na verdade, o iceberg que está abrindo rombo no casco. O que se via nos relatórios trimestrais bonitos era o crescimento de contratos. O que não se via era a corrosão estrutural da utilidade marginal de cada programador alocado.

O processo judicial coletivo merece atenção redobrada porque revela algo que se repete em ciclo nos mercados, a tentação de esticar a narrativa quando os números começam a contradizê-la. Comunicados otimistas, projeções generosas, linguagem corporativa cheia de "ventos favoráveis" e "posicionamento estratégico" servem para ganhar tempo, mas o tempo, esse sim, sempre cobra juros compostos. Quando a justiça americana entra na história, não é mais o analista de banco escrevendo relatório elegante, é advogado dissecando comunicado oficial linha por linha em busca de inconsistência material. E quase sempre acha.

O caso da Globant não é exceção, é regra. É o roteiro previsível de toda empresa que prometeu mais do que a aritmética permitia entregar, num ambiente onde o sistema financeiro inteiro foi treinado para premiar quem promete grande e punir quem fala a verdade. O ajuste vem, sempre vem. A questão nunca foi se viria, mas quem ficaria segurando o mico quando a música parasse. Promessa em dólar paga-se em tribunal.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.