A General Motors anunciou ao mercado que está mais otimista com seus resultados, e a razão dessa euforia repentina não vem de nenhuma genialidade industrial, de nenhum carro revolucionário, de nenhuma conquista de produtividade. Vem de uma planilha em Washington. A montadora projeta receber de volta uma parte das tarifas que pagou sobre componentes importados, e essa expectativa, sozinha, foi suficiente para empurrar a perspectiva de lucro para cima. Quer dizer, o ativo mais valioso da maior montadora americana hoje não é uma fábrica, não é uma patente, não é uma marca. É uma promessa burocrática.
Olha, é preciso parar um segundo e admirar a arquitetura do golpe. O governo impõe tarifas alegando proteger a indústria nacional. As tarifas encarecem peças, encarecem carros, encarecem a vida do sujeito que precisa do veículo para trabalhar. A indústria, a mesma que aplaudiu o protecionismo nos bastidores e contratou lobistas para defendê-lo nos corredores, depois reclama que as tarifas estão pesadas demais e pleiteia reembolso, isenção, tratamento especial. E recebe. O contribuinte paga duas vezes, primeiro no preço inflado do produto, depois no imposto que financia a devolução seletiva ao bem relacionado.
O que se vê é o lucro maior, o release otimista, a ação subindo, o executivo sorrindo na conferência com analistas. O que não se vê é o pequeno fornecedor que não tem departamento jurídico em Washington para pleitear reembolso, é a montadora estrangeira menor que paga a tarifa cheia sem direito a benefício, é o consumidor que comprou o carro pelo preço inflado e não vai ver um centavo de volta quando a Receita devolver o dinheiro à companhia. A devolução nunca é universal. Sempre tem nome, sempre tem CNPJ, sempre tem o telefone certo.
E há aqui uma lição que o discurso oficial faz questão de embaçar. Quando uma empresa do tamanho de uma General Motors revisa lucros para cima por causa de uma decisão regulatória, ela está confessando, sem querer, que opera num regime onde a caneta vale mais que a engenharia. O capital deixa de ser alocado conforme a demanda real do consumidor e passa a ser alocado conforme a expectativa de favor estatal. É a definição clássica de uma economia capturada, onde a tabela de tarifas se tornou mais decisiva para o balanço do que o desempenho do produto.
Sigamos o dinheiro até o fim da gaveta. As tarifas geram arrecadação que entra no caixa do Tesouro, vira gasto público, infla o orçamento federal, sustenta a engrenagem de Washington. Parte desse mesmo dinheiro retorna às empresas que melhor sabem navegar a burocracia, sob a forma de reembolso, crédito, isenção, programa setorial. O sujeito comum, que não tem assento em nenhuma mesa, financia a festa inteira via preço final do produto. O resultado contábil chamam de lucro. O nome correto é transferência de renda do consumidor anônimo para o acionista bem conectado.
No fim das contas, o investidor que celebra a perspectiva elevada da montadora deveria estar inquieto, não eufórico. Empresa que depende de reembolso governamental para fechar a conta não está vendendo carros, está vendendo lobby. E lobby tem prazo de validade tão curto quanto a próxima eleição.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.