A GMR Solutions chegou ao balcão da bolsa querendo vender suas ações por um preço, e os investidores, com aquela frieza que só quem arrisca o próprio bolso consegue ter, responderam que não. O resultado foi a redução do preço do IPO para quinze dólares por ação, um corte que os releases corporativos vão tentar embrulhar em linguagem técnica, mas que tem nome simples e antigo: o mercado disse não. E quando o mercado diz não, ele não está sendo cruel nem irracional, está sendo honesto, coisa que poucos agentes econômicos no mundo contemporâneo ainda conseguem ser.
Repare na beleza silenciosa do mecanismo. Ninguém precisou convocar uma comissão, nomear um regulador, redigir um decreto ou conceder uma entrevista coletiva. Milhares de pessoas, espalhadas por continentes, com informações fragmentadas, expectativas diferentes e bolsos de tamanhos variados, agregaram seu conhecimento disperso e produziram um veredicto: aquele preço inicial não correspondia ao valor que o conjunto dessas mentes atribuía ao negócio. Nenhum burocrata em Brasília, Washington ou Frankfurt jamais teria chegado a essa precificação, porque nenhum burocrata possui o conhecimento que está distribuído entre os participantes do mercado. E essa, senhoras e senhores, é a lição que custou um século inteiro de experimentos socialistas para alguns aprenderem, e que muitos ainda fingem não ter aprendido.
Olha, é interessante observar como a imprensa econômica trata o episódio com tom levemente fúnebre, como se um IPO ajustado para baixo fosse fracasso. Não é. É o oposto. É exatamente o sistema funcionando como deveria, ao contrário do que acontece quando um banco central decide, sozinho, num gabinete climatizado, qual deve ser o preço do dinheiro. Ali sim há fracasso garantido, porque ali há um homem ou um comitê tentando substituir milhões de cérebros por um único cérebro privilegiado. Aqui, no IPO da GMR, há justamente o contrário: há humildade institucional, há o reconhecimento de que o emissor não manda no preço, quem manda é quem compra.
Quer dizer, e é aqui que a coisa fica saborosa, todo investidor que olhou para os números e disse "por esse preço, não", estava exercendo uma função que nenhum decreto consegue replicar. Estava emitindo um sinal, um pedacinho minúsculo de informação que, somado aos outros, formou uma decisão coletiva sem coletivismo, uma deliberação democrática sem democracia formal, um julgamento sem juiz. É a ordem espontânea agindo diante dos olhos de quem ainda sabe enxergar, e enxergar isso requer um treino que as universidades pararam de oferecer faz tempo.
Compare com o teatro paralelo, aquele em que governos lançam títulos públicos a juros que eles mesmos definem, em que bancos estatais emprestam a empresas escolhidas a dedo por critérios políticos, em que subsídios são distribuídos para "campeões nacionais" que nunca venceriam num jogo limpo. Nesses cenários, ninguém corta preço, ninguém ajusta expectativa, ninguém escuta sinal nenhum, porque o contribuinte, esse personagem mudo da peça, está sempre pagando a conta sem direito a voto na precificação. O IPO ajustado é o que acontece quando o vendedor depende de convencer. O calote disfarçado de política pública é o que acontece quando o vendedor manda no comprador na ponta da baioneta tributária.
Me diz uma coisa, quando foi a última vez que um programa governamental teve seu orçamento cortado porque a população simplesmente decidiu não comprar a ideia? Pois é. A GMR foi forçada a se ajustar à realidade em questão de dias. Programas estatais fracassados sobrevivem décadas, gerações inteiras, financiados à força. A diferença entre os dois mundos não é técnica, é moral, e quem não enxerga essa diferença ou é ingênuo ou é cúmplice. O mercado, com todos os seus defeitos, ainda é o único lugar onde dizer não custa zero e vale tudo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.