Existe um momento em que o mercado financeiro revela sua natureza com mais clareza do que qualquer manual de economia consegue descrever: quando o ativo que durante cinco mil anos serviu de escudo contra a inflação despenca exatamente no instante em que a inflação vira ameaça oficial. Foi o que aconteceu esta semana. O ouro caiu. A ameaça inflacionária subiu. Washington anunciou o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta, e o metal que reis, mercadores e camponeses usaram para proteger riqueza desde antes de Cristo foi na direção errada. Se você ficou confuso, é porque a explicação verdadeira é mais constrangedora do que os noticiários estão dispostos a dar.
O ouro não está caindo porque a inflação não é real. Está caindo porque o mercado já precifica a resposta do banco central americano: juros mais altos para conter a alta de preços gerada pelo choque de oferta de energia. Quer dizer, o petróleo vai subir porque o governo americano bloqueou um estreito, a inflação vai subir porque o petróleo vai subir, e o banco central vai subir os juros para conter a inflação que o próprio governo causou. O ouro, sensível a juros reais, cai. O cidadão comum, que não entende nada disso, vai sentir na bomba de gasolina e no supermercado. O Estado criou o problema, o banco central aplica o remédio amargo, e quem paga a conta é quem menos participou da decisão. Perfeito.
Me diz uma coisa: quem pediu esse bloqueio? A narrativa oficial sempre apresenta esses movimentos como "respostas necessárias", "defesa de interesses nacionais", "proteção das rotas comerciais". Mas existe uma trilha interessante a seguir. Quando o petróleo sobe, os produtores domésticos americanos faturam mais. Quando há escalada militar, a indústria de defesa fatura mais. Quando há instabilidade geopolítica, o capital foge para o dólar, fortalecendo a moeda americana em relação ao resto do mundo. Os "perdedores" desta equação são os países importadores de energia, as populações mais pobres do planeta e você. Os "ganhadores" costumam ter endereço em Houston, na Virgínia e nos corredores de Washington. Siga o dinheiro e nunca erre.
O fracasso das negociações com o Irã não surpreende quem acompanha a história das "negociações" que precedem intervenções. Existe um padrão antigo, repetido com tédio monumental ao longo dos séculos: diplomacia que não é para resolver, mas para documentar que "tentamos". A coreografia da paz fracassada cumpre uma função específica, legitimar o que vinha sendo preparado antes mesmo das primeiras conversas. O bloqueio de Ormuz não nasceu da falha das negociações. As negociações nasceram para justificar o bloqueio. Isso não é teoria, é sequência histórica.
Olha, o problema com choques de oferta de energia é que eles se comportam como impostos regressivos com esteroides. Quando o petróleo sobe vinte por cento, o rico sente no extrato e recalibra o portfólio. O pobre sente na cesta básica, no ônibus, na conta de luz, e não tem portfólio para recalibrar. A inflação energética produzida por decisão geopolítica de um Estado estrangeiro é uma transferência de renda das populações mais vulneráveis do planeta para os produtores de energia e fabricantes de armamentos. Isso não é análise de conspiração. É aritmética.
O ouro vai se recuperar, como sempre faz. Metais preciosos têm uma paciência que governos não têm. A ironia final é que o mesmo caos geopolítico que hoje deprime o metal no curto prazo, ao alimentar déficits, dívidas, emissões monetárias para cobrir gastos militares e erosão da confiança institucional, vai empurrar o ouro para cima no médio prazo. Quem criou o problema vai acabar justificando a solução que o mercado já sabia desde o começo. O Estado não resolve crises, ele as adia com juros compostos, e manda a conta para quem não votou na decisão.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.