O Goldman Sachs elevou a Allianz SE para "compra" e projetou valorização de 16%, apoiado em perspectiva "forte" de lucro por ação. Ponto. É disso que se trata a notícia, e é disso que a manada vai viver pelas próximas semanas, rearranjando carteiras, refazendo modelos, reescrevendo teses que ontem mesmo diziam o contrário. O mercado, esse organismo supostamente racional que agrega o conhecimento disperso de milhões, de repente descobre que precisava de um analista sênior de terno cinza para enxergar o que estava na cara.

Vale olhar para o que não se vê. O upgrade não nasce no vácuo: nasce dentro de uma casa que faz banco de investimento, vende produtos estruturados, assessora fusões, intermedeia colocações e, coincidentemente, tem relações comerciais com metade das seguradoras listadas do planeta. Não estou dizendo que há conflito explícito nesse caso específico; estou dizendo que o leitor adulto sabe que recomendação de banco grande é instrumento de negócio, não oráculo desinteressado. Quando o relatório sai, alguém já comprou na véspera, alguém vai vender no pico, e o investidor de varejo chega atrasado na festa para pagar a conta do champanhe.

A tese fundamental é plausível, é verdade. A Allianz opera num continente onde o Banco Central Europeu passou uma década empurrando juros para o chão, destruindo a matemática atuarial das seguradoras, e agora que os juros voltaram a respirar, o balanço dessas empresas respira junto. Só que isso já estava lá ontem, estava lá no mês passado, estava lá no trimestre passado. O que mudou foi o carimbo, não o fato. É a velha diferença entre a realidade e a percepção da realidade, e no mercado moderno a percepção paga mais caro que a realidade.

Há uma ironia saborosa nisso tudo. O mesmo ambiente regulatório europeu que asfixia pequenas empresas, que tritura startups com Solvência II, MiFID, GDPR e um cipoal de siglas que nenhum burocrata de Bruxelas sabe recitar inteiras, é o mesmo que protege gigantes como a Allianz da competição real. Regulação pesada não combate o grande; blinda o grande. Quanto mais complexo o labirinto, mais caro contratar o minotauro jurídico que sabe atravessá-lo, e só quem tem balanço de trilhão paga o minotauro. O investidor que compra Allianz está comprando, no fundo, uma posição privilegiada dentro de um cartel legalizado pelo próprio Estado que jura combater cartéis.

E há o recado implícito para quem investe daqui, do Brasil, olhando para a Europa como quem olha para a terra prometida. A seguradora europeia floresce num ambiente onde a inflação foi domada a ferro e fogo, onde o direito de propriedade ainda vale alguma coisa, onde contratos de longuíssimo prazo podem ser precificados com algum grau de previsibilidade. Compare com o nosso jabuticabal, onde cada eleição ameaça redesenhar regras, cada governo inventa um novo imposto, cada crise produz um novo confisco criativo. Não é que o europeu seja mais esperto; é que o ambiente dele, com todos os defeitos que tem, ainda respeita um mínimo de previsibilidade jurídica que aqui tratamos como luxo opcional.

No fim, o que o relatório do Goldman diz é menos sobre a Allianz e mais sobre como o capitalismo financeiro funciona: uma liturgia onde sacerdotes de gravata recitam projeções de LPA e o rebanho corre atrás, convencido de que está pensando por conta própria. Comprar com base em recomendação de banco grande é como casar baseado em horóscopo de revista: pode dar certo, mas se der, foi sorte, não método. A única análise que protege o investidor é a que ele mesmo faz, com os olhos abertos, sabendo que no mercado, como na política, quem não está na mesa está no cardápio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.