A notícia chega quase como anedota para quem acompanha a tragicomédia fiscal brasileira. O Goldman Sachs, que não é exatamente uma ONG de caridade nem um clube de leitura austríaca, projeta que a África do Sul terá seu rating soberano elevado pelas agências de risco porque o governo de Pretória, depois de anos enrolando, finalmente resolveu segurar o gasto, estabilizar a dívida e parar de tratar o Tesouro como caixinha de campanha. Repare na frase: a recompensa veio porque pararam de fazer besteira. Não inventaram nada, não criaram um novo modelo de desenvolvimento, não descobriram a pólvora do crescimento inclusivo. Apenas resolveram gastar menos do que arrecadam. E o mercado, que é o agregador mais honesto de informação dispersa que a humanidade já produziu, leu o gesto e respondeu na hora.
Compare com o Brasil de 2026, onde qualquer sugestão de conter despesa é tratada como crueldade contra os pobres, atentado à democracia ou, no melhor dos casos, neoliberalismo tardio. Aqui se inventou o conceito mágico de que cortar gasto público derruba a economia, quando na verdade o que derruba a economia é o Estado sugando a poupança privada via dívida e via imposto para financiar uma máquina que não para de crescer. A África do Sul, que tem PIB per capita pior que o nosso e desigualdade pior que a nossa, entendeu antes. E vai ser premiada por isso com juros menores, capital mais barato, investimento de volta. Tudo aquilo que andamos mendigando em viagens internacionais enquanto o ministro da Fazenda exibe planilha criativa.
O detalhe que ninguém comenta é o seguinte: rating não é opinião, é precificação de risco com dinheiro de verdade na mesa. Quando uma agência rebaixa um país, fundos de pensão americanos e europeus são obrigados por estatuto a vender a dívida daquele soberano. Quando elevam, podem comprar. Estamos falando de trilhões em fluxo. E o que move esse fluxo não é simpatia ideológica, é a probabilidade fria de o governo honrar o que prometeu pagar. A África do Sul mostrou trajetória de dívida sob controle, e o capital começa a se movimentar na direção dela. O Brasil mostra trajetória de dívida explosiva e arcabouço fiscal que já furou todas as metas que prometeu cumprir, e depois se espanta quando o real apanha, o juro longo dispara e a Bolsa some do mapa global.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. Quem ganha com gasto público descontrolado no Brasil? O fornecedor contratado sem licitação séria, o sindicato corporativo que arranca reajuste acima da inflação, o BNDES emprestando barato para campeão nacional, a estatal inchada que serve de cabide de emprego, a ONG que vive de convênio. Quem paga? O sujeito que acorda às cinco da manhã, paga imposto sobre o pão, sobre a gasolina, sobre a conta de luz, sobre o salário, sobre o pouco que sobra para o supermercado. A pilhagem é organizada, legal, contínua e tem nome bonito. Chama-se política pública, chama-se justiça social, chama-se desenvolvimento. Na África do Sul, alguém finalmente teve coragem de dizer que esse arranjo destrói o país. No Brasil, dizer isso é quase crime de lesa-pátria.
O mais constrangedor é a comparação histórica. Há vinte anos, o Brasil era a sexta economia do mundo, candidato natural a grau de investimento permanente, queridinho dos emergentes. A África do Sul vinha de décadas de apartheid, instituições frágeis, infraestrutura colapsando. Hoje eles estão prestes a subir de degrau no rating e nós estamos brigando para não cair mais um. O que mudou? Eles começaram a respeitar a aritmética. Nós continuamos achando que aritmética é construção social. O resultado é que país sério é premiado e país que se acha esperto demais é cobrado. Não há mistério, não há complô, não há geopolítica. Há apenas a velha lei segundo a qual quem gasta mais do que ganha quebra, seja família, seja empresa, seja nação.
E aqui mora a lição que ninguém em Brasília quer aprender, porque aprendê-la significaria perder poder, perder cargo, perder a capacidade de distribuir favores com o dinheiro alheio. Disciplina fiscal não é ideologia, é matemática. Responsabilidade orçamentária não é crueldade, é o mínimo de respeito por quem paga a conta. Enquanto continuarmos tratando o óbvio como heresia e a heresia como progresso, vamos seguir vendo países que há pouco eram considerados inferiores nos ultrapassando na fila do capital global. A África do Sul não fez milagre. Apenas parou de mentir para si mesma. Talvez seja a coisa mais revolucionária que um governo possa fazer no século XXI.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.