O comunicado do Goldman Sachs prevendo queda nas ações americanas por causa da alta do petróleo tem aquele tom solene de quem acabou de inventar a roda. Energia mais cara comprime margem de empresa, corrói poder de compra do consumidor, pressiona inflação que já estava represada na tubulação, e o índice acionário, que vinha sustentado em multiplicadores esticados como elástico de calcinha velha, finalmente percebe que precificou um mundo que não existe. Belíssima descoberta. Faltou apenas o banco explicar como chegamos aqui, porque a memória de Wall Street tem a duração média de um ciclo de bônus.
Vamos lembrar a sequência, já que ninguém mais quer lembrar. Anos de juro artificialmente baixo, trilhões impressos para socorrer aventura financeira em 2008, mais trilhões impressos durante a pandemia, restrição regulatória sobre extração de hidrocarbonetos em nome de uma transição energética planejada por gente que nunca soldou um cano, sanções geopolíticas que tiraram oferta do mercado sem aumentar oferta em outro lugar, e cartéis produtores fazendo o que cartéis produtores sempre fazem. Some tudo isso e o resultado é o petróleo subindo. O choque não é o preço do barril. O choque é a cara de surpresa.
O detalhe pitoresco é que o mesmo sistema financeiro que agora se apavora com energia cara passou a década anterior alocando capital em qualquer coisa que tivesse a palavra "verde" no prospecto, financiando expansão monetária com aplauso, lobando regulação que sufocou refinaria e exploração doméstica, e empurrando narrativa de inflação transitória enquanto comprava ativos reais com dinheiro novinho em folha. Agora vem o relatório dizendo que a bolsa pode cair. Olha, é como o incendiário pedindo desconto na seguradora. A função do banco de investimento contemporâneo não é avisar a tempestade, é vender capa de chuva depois de ter tirado o telhado da sua casa.
O que ninguém comenta no relatório é o que não se vê na manchete. Cada dólar que o americano comum gasta a mais no posto é um dólar que ele não gasta no comércio, na construção, no pequeno empresário que segura emprego de gente real. Cada ponto de inflação importada via energia é imposto disfarçado, pago por quem vive de salário e cobrado por quem nunca foi eleito para cobrar nada. A bolsa cair é apenas o termômetro registrando febre que o paciente já sentia há meses no bolso. O índice é só o último a saber porque o índice é movido por algoritmo, e algoritmo não vai ao supermercado.
Há também a peça moral da encenação, que merece ser nomeada. Quando o mercado sobe, é mérito da gestão sofisticada, da inovação, do talento dos analistas em terno de oito mil dólares. Quando o mercado cai, é culpa do petróleo, da geopolítica, do clima, do azar, do paciente. Lucro é privatizado em forma de bônus, prejuízo é socializado em forma de inflação e resgate. Esse arranjo tem nome, e o nome não é capitalismo, é capitalismo de compadrio com sotaque de Manhattan, exportado para o resto do mundo como se fosse ciência econômica.
A lição, para quem ainda quer aprender, é antiga e desconfortável. Riqueza não nasce de juro baixo nem de planejamento iluminado, nasce de poupança real, produção real, energia abundante e propriedade respeitada. Toda vez que se atalha algum desses pilares, a conta chega, e chega pelo lado mais fraco da fila. Quando o relatório do banco diz que a bolsa vai cair, não está fazendo profecia, está apenas lendo em voz alta a fatura que outros emitiram e o cidadão comum vai pagar. O resto é literatura financeira para justificar honorário.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.