O ritual se repete com a precisão de um relógio suíço: a multinacional divulga o trimestre, o banco grandalhão de Nova York reitera a recomendação de compra, o terminal Bloomberg pisca verde e os jornais reproduzem o veredicto como se fosse oráculo de Delfos. Goldman Sachs gostou da FMC. Pronto, está dado o evangelho do dia. Só que olhar para um call de banco sem perguntar quem ganha com o call é o mesmo que ler bula de remédio escrita pelo laboratório e achar que entendeu farmacologia.

Vamos ao fato concreto. A FMC vem de trimestres difíceis, com estoques inflados na cadeia, agricultor endividado e preço de commodity agrícola em compressão. O primeiro tri veio "melhor que o esperado", e o "esperado" tinha sido rebaixado tantas vezes que pular essa barra é mais fácil que tropeçar nela. O banco recomenda compra, projeta normalização de estoques, fala em recuperação de margens. Tudo muito limpo no PDF. O que o PDF não conta é que essa "normalização" depende de crédito rural farto, de câmbio comportado e de um governo que continue garantindo, via BNDES, Plano Safra e equalização de juros, que o agricultor consiga rolar dívida para comprar o defensivo do ano que vem.

Quer dizer, o relatório vende como tese de mercado o que na prática é um arranjo de três pernas onde duas são públicas. A primeira perna é o produtor, que toma risco de clima, praga e preço. A segunda é a fabricante, que vende insumo dolarizado num mercado onde o cliente recebe em real e quebra quando o real desaba. A terceira, a que sustenta o esquema todo, é o contribuinte brasileiro pagando pela equalização de taxa, pelos fundos garantidores, pelo seguro rural subsidiado e pelas renegociações que sempre aparecem em ano eleitoral. Tira essa terceira perna e a tese do banco vira pó antes do segundo trimestre.

Olha, ninguém aqui está torcendo contra a FMC. Defensivo agrícola é insumo legítimo, empresa privada vendendo produto privado para cliente privado é exatamente como o mundo deveria funcionar. O problema é o teatro. Quando o analista escreve "perspectivas favoráveis para o ciclo 26/27", ele está embutindo na planilha a premissa de que o Tesouro Nacional continuará bancando a festa, que o Banco Central segurará a inflação que o próprio governo cria gastando demais, e que o câmbio não vai explodir apesar de uma dívida pública correndo para 80% do PIB. É muita coisa para um modelo de fluxo de caixa descontado fingir que não está vendo.

A história financeira tem um humor cruel com essas recomendações de banco. Em 2007, os mesmos terminais piscavam verde para empacotadoras de hipoteca subprime com selo AAA. Em 2000, era para empresa que vendia ração de cachorro pela internet sem ter logística. Em 1929, era para holdings alavancadas que se compravam mutuamente. O padrão é antigo: quando o crédito está barato e o sistema precisa colocar papel na mão de alguém, surgem analistas explicando, com gráficos lindíssimos, por que desta vez é diferente. Nunca é. A música acaba, alguém fica sem cadeira, e o sujeito que perdeu nunca é quem assinou o relatório.

Me diz uma coisa: se a tese fosse mesmo tão boa, o agricultor brasileiro precisaria de subsídio bilionário para comprar o produto? Se a margem fosse tão sólida, a empresa teria precisado guiar para baixo trimestre após trimestre? Recomendação de compra é fácil de escrever quando o risco de cauda mora no orçamento alheio. Quem vai pagar a conta se a tese furar não é quem vai receber o bônus se a tese der certo, e essa assimetria, essa, sim, é o verdadeiro produto que Wall Street vende há um século.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.