O Goldman Sachs abriu o balanço do primeiro trimestre de 2026 e jogou na mesa os seguintes números: receita líquida de 17,2 bilhões de dólares, lucro de 5,6 bilhões, lucro por ação de 17,55 dólares contra os 16,47 que o consenso esperava, e uma mesa de trading de ações que bateu recorde histórico com 5,3 bilhões em um único trimestre. E as ações caíram. Quem não entende por que isso acontece não entende Wall Street, e quem entende por que isso acontece começa a entender por que Wall Street não é exatamente o mercado livre que os seus defensores às vezes supõem que seja.

A queda da ação é, na superfície, técnica: os chamados "whisper numbers", os números que circulam nos bastidores entre os grandes investidores institucionais antes de qualquer resultado oficial, estavam ainda mais altos do que os impressionantes 17,55 por ação que vieram. Quando a realidade supera o consenso público mas não supera o rumor privado, você vende. É assim que funciona o jogo quando é disputado entre profissionais com acesso a informações que você nunca vai ter. Não é ilegal pelo código daquele mundo, mas é uma dica de que a noção romântica de mercado eficiente e horizontal precisa de qualificações sérias quando o terreno é dominado por operadores com linhas diretas ao banco central e escritórios no mesmo quarteirão do Tesouro.

Agora vem a parte que merece atenção real: de onde veio o recorde? A resposta está na volatilidade. O caos de mercado do primeiro trimestre, aquele que fez investidores comuns acordarem sobressaltados, que fez empresas suspenderem planos de expansão, que fez tesoureiros corporativos olharem para a incerteza das tarifas e decidirem não fazer absolutamente nada por enquanto, esse mesmo caos foi gasolina para a mesa de trading do Goldman. Volatilidade é oxigênio para quem vive de ordem-de-compra e ordem-de-venda. Quanto mais os institucionais rebalanceiam carteiras em pânico, mais fluxo passa pelas mesas dos grandes bancos, mais comissão, mais spread, mais receita. O Goldman não causou o caos, mas certamente estava posicionado para colher cada centavo que o caos produz.

E quem criou o caos? A guerra tarifária, as ameaças e contraameaças comerciais, a incerteza geopolítica amplificada por conflitos que empurraram o Brent acima de cem dólares, a dança errática da política monetária global. Tudo isso, sem exceção, é produto de decisões de governo. Não de mercado. A volatilidade que encheu o cofre do Goldman neste trimestre foi fabricada em gabinetes, não em bolsas. Esta é a distinção que os analistas de banco raramente fazem com clareza: o Goldman Sachs não é o beneficiário do mercado livre. É o beneficiário das distorções que a intervenção estatal permanente injeta no sistema financeiro. Em um mercado genuinamente estável, com regras previsíveis e câmbio determinado por forças reais, você teria menos volatilidade especulativa de pânico e, portanto, menos gordura para a mesa de trading. O Goldman prospera no mundo que existe, não no mundo que deveria existir.

Siga o dinheiro um pouco mais fundo e você encontrará algo que nenhum press-release menciona: a relação simbiótica entre os grandes bancos de Wall Street e o Estado americano não é acidente histórico, é arquitetura deliberada. Ex-executivos de grandes bancos tornaram-se secretários do Tesouro, presidentes de bancos centrais, reguladores de mercado. Ex-reguladores tornaram-se sócios e consultores dos mesmos bancos. A porta giratória gira com tanta regularidade há tantas décadas que já não dá para distinguir onde termina o banco e começa o governo. Quando o Estado cria a volatilidade e o banco lucra com a volatilidade, você não está observando capitalismo de mercado. Você está observando a versão sofisticada e de gravata de algo muito mais antigo: o uso do poder público para garantir posições privadas. A diferença é que o resultado aparece num balanço com receitas recordes em vez de num decreto de monopólio.

O analista que mantém recomendação de compra não está errado. O Goldman vai continuar sendo o Goldman enquanto a arquitetura que o sustenta continuar intacta, e essa arquitetura é robusta demais para ser abalada por um trimestre ou por qualquer eleição. Mas a pergunta que nunca aparece na cobertura do resultado trimestral é a seguinte: quem está pagando pela volatilidade que gerou esse recorde? A resposta é toda empresa que suspendeu investimento, todo trabalhador que perdeu emprego numa cadeia produtiva paralisada pela incerteza tarifária, todo poupador que viu o fundo despencar enquanto o dinheiro migrava para os únicos que sabem nadar no caos que o Estado fabrica. Recorde de lucro. Ação em queda. E a conta, como sempre, para quem não tem mesa de trading.

Com informações do Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.