O Goldman Sachs, com aquela serenidade de banco que erra projeções há décadas e continua sendo levado a sério, anunciou que empurrou o próximo corte de juros do Fed para dezembro de 2026, e o seguinte para março de 2027. O motivo oficial é que a inflação está "mais persistente do que o antecipado". Olha, me diz uma coisa, antecipado por quem? Pelos mesmos economistas que em 2021 garantiam que a alta de preços era "transitória"? Pelos mesmos que financiaram a maior expansão monetária da história moderna e agora se surpreendem que os preços não voltam dócilmente para a caixinha?
A inflação não é um fenômeno climático que aparece sem aviso. Ela é, foi e sempre será o resultado direto de governos que gastam mais do que arrecadam e bancos centrais que imprimem dinheiro para cobrir o buraco. Quando se despeja trilhões na economia em nome do combate à pandemia, da guerra, da transição energética, do que quer que seja a desculpa do mês, o preço aparece depois, com juros. E aparece justamente onde mais dói, na comida, no aluguel, no combustível, naquilo que o trabalhador comum não consegue substituir nem adiar.
O detalhe delicioso é que o Goldman não está dizendo nada que qualquer pessoa com noção elementar de aritmética monetária não soubesse há dois anos. Está apenas formalizando, com aquele jargão de relatório institucional, o que o cidadão sente todo dia no supermercado. E o Fed, esse oráculo de Delfos com gravata, segue dançando entre cortar juros para agradar Wall Street e manter juros altos para esconder o estrago que ele mesmo causou. É a tragédia clássica do bombeiro piromaníaco, ele apaga o incêndio que provocou e ainda cobra por isso.
Siga o dinheiro, sempre. Quem ganha com juros baixos? Os endividados, os bancos que precisam reciclar carteira, os fundos alavancados, o Tesouro americano que carrega uma dívida de mais de trinta e seis trilhões de dólares e precisa rolar a conta sem explodir o orçamento. Quem perde? O poupador, o aposentado, o trabalhador que vê seu salário derretendo enquanto Wall Street comemora cada sinalização dovish do Fed como se fosse Natal. A política monetária expansionista é a transferência mais elegante de riqueza já inventada, tira de quem trabalha e dá a quem está perto da impressora.
E o Brasil, espectador atento dessa novela, sabe muito bem como termina. Já vivemos isso aqui dezenas de vezes, com nomes diferentes, planos diferentes, ministros diferentes, sempre com o mesmo final. Quando um país descobre que pode pagar suas contas imprimindo papel, ele não para de imprimir até que o papel não valha mais nada. Os Estados Unidos têm o privilégio de ter a moeda de reserva mundial, o que lhes dá fôlego maior, mas não imunidade. Nenhuma civilização que adotou o dinheiro fácil como política permanente sobreviveu intacta à conta que veio depois.
Goldman pode adiar projeção, Fed pode adiar corte, mídia pode adiar o reconhecimento do óbvio. A realidade econômica, essa, não adia nada. Ela cobra na hora marcada, e o boleto chega sempre para quem menos tem como pagar.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.