O que aconteceu esta semana entre a MBRF e a SALIC, o fundo soberano agrícola da Arábia Saudita, diz mais sobre como o mundo realmente funciona do que qualquer cúpula diplomática dos últimos cinco anos. Uma empresa brasileira ampliou seu acordo de venda de proteínas com um dos maiores compradores institucionais de alimentos do planeta, o Goldman Sachs declarou a operação positiva e de baixo risco, e a ação subiu. Simples assim. Sem ministério, sem cerimônia, sem foto de ministro sorridente em Riad.

A Arábia Saudita aprendeu há décadas uma lição que o Brasil ainda resiste em aprender: quem não produz comida precisa comprá-la antes que não haja mais para comprar. A SALIC existe exatamente para isso, para converter o petrodólar, antes que se deprecie, em contratos de longo prazo com quem tem terra, sol e tecnologia agrícola de primeira linha. O Brasil, apesar de si mesmo, tem os três. E quando o mercado é livre o suficiente para operar, ele encontra o comprador certo no outro lado do planeta antes que qualquer burocracia descubra que existe oportunidade ali.

Quer dizer, não deixa de ser revelador que um Estado absolutista do Golfo Pérsico, que controla cada barril de petróleo com mão de ferro, use exatamente o instrumento do mercado livre para garantir sua segurança alimentar. Enquanto isso, o Brasil, que tem a maior fronteira agrícola do mundo, ainda inventa programa após programa para "apoiar" o agronegócio, como se ele precisasse de tutela estatal para existir. Ele não precisa. Ele cresce apesar da Receita Federal, não por causa dela. Este acordo com a SALIC é mais uma prova.

Olha, o Goldman Sachs não assinou relatório positivo por patriotismo ou por simpatia ao setor. Assinou porque os números fecham, o risco é calculável e o fluxo de caixa é previsível. É isso que uma análise financeira honesta faz: tira o romantismo, deixa a aritmética. Quando o mercado acompanha com alta da ação, está dizendo o que o banco confirma em relatório: este contrato vale dinheiro real, gerado por troca voluntária entre quem produz e quem precisa comprar. Nenhuma portaria criou isso.

Me diz uma coisa: quantos "programas de promoção de exportações" o governo federal lançou nos últimos vinte anos? Quantos fundos de competitividade, câmaras setoriais, planos plurianuais, missões diplomáticas com ministros em fotos com líderes estrangeiros? E quantos deles resultaram em algo da magnitude de um contrato firmado diretamente, empresa com fundo soberano, sem intermediário estatal? A resposta para a primeira pergunta enche anuário. A resposta para a segunda é mais curta e mais honesta.

O agronegócio brasileiro é uma anomalia produtiva num país que insiste em se autossabotar fiscalmente. Cada real de imposto sobre insumo, cada licença ambiental usada como instrumento de pressão, cada taxa inventada por secretaria sem orçamento, é um custo que o produtor absorve antes de chegar ao preço que a SALIC vai pagar. E mesmo assim chegam ao acordo. E mesmo assim o Goldman assina o relatório. Imagine o tamanho desta operação se o Estado brasileiro fosse a metade do que é. A Arábia Saudita já entendeu o que o Brasil ainda não aceitou: a riqueza real é o que brota da terra, não o que sai da impressora.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.