A cena se repete com a regularidade de um relógio suíço quebrado que acerta duas vezes por dia. Um executivo do Google Cloud aparece na conferência anual da Goldman Sachs, veste o sorriso ensaiado de quem decorou o script na véspera, e despeja sobre a plateia de gestores de fundos a boa nova de que a inteligência artificial está impulsionando um crescimento sem precedentes no negócio de nuvem. Os analistas anotam, os algoritmos de trading reagem, a ação sobe alguns centavos, e todo mundo finge que aquilo é análise econômica em vez do que realmente é: um comercial de trinta minutos disfarçado de simpósio financeiro.

Olha, existe uma diferença sutil, mas fundamental, entre uma empresa que está ganhando dinheiro com um produto e uma empresa que está gastando dinheiro para que você acredite que ela vai ganhar dinheiro com um produto no futuro. O Google Cloud é a segunda categoria travestida da primeira. A divisão queima capital a uma velocidade que faria um mineiro de ouro do século dezenove parecer prudente, e o argumento para justificar a queima é sempre o mesmo: a inteligência artificial vai mudar tudo, portanto qualquer múltiplo é barato, qualquer investimento é justificado, qualquer prejuízo é apenas semente para a colheita futura. É a mesma retórica que sustentou a bolha das pontocom, a bolha imobiliária, a bolha das criptomoedas e agora sustenta essa. Só muda o santo, a ladainha é idêntica.

Quer dizer, alguém precisa fazer a pergunta que ninguém quer ouvir na sala perfumada da Goldman. Quem está pagando por essa festa? Porque data center não brota do chão, chip da Nvidia não é distribuído gratuitamente, e energia elétrica para treinar modelo de linguagem não sai do nada. Cada dólar de receita anunciada com pompa vem acompanhado de dois dólares de capex escondidos no rodapé do balanço, financiados por dinheiro barato que os bancos centrais imprimiram durante uma década de estímulo monetário artificial. Quando o custo do capital voltar a ser o que sempre deveria ter sido, ou seja, o preço real da poupança das pessoas em vez do preço fabricado por um comitê de burocratas, muita coisa que hoje parece genial vai revelar sua verdadeira natureza de castelo de areia com marketing agressivo.

E tem o outro lado, aquele que ninguém menciona no palco da Goldman porque estraga o clima. Enquanto o Google, a Microsoft e a Amazon disputam a tapa quem gasta mais bilhões em infraestrutura para servir uma demanda por inteligência artificial que ainda ninguém sabe direito se existe na magnitude prometida, os concorrentes de verdade estão em outro lugar. Modelos abertos rodam em hardware doméstico com qualidade que faz o CEO de nuvem gigante suar frio. A margem que hoje sustenta a narrativa vai ser comprimida pela concorrência que nenhum executivo bem pago quer admitir que existe. O rei tem roupas caríssimas encomendadas de alfaiate suíço, mas continua nu debaixo do casaco.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que uma tecnologia realmente revolucionária precisou de um executivo subindo em palco de banco de investimento para explicar por que ela é revolucionária? A eletricidade dispensou apresentação. A internet dispensou apresentação. O smartphone dispensou apresentação. Quando você precisa contratar uma orquestra de relações-públicas para convencer o mercado de que seu produto é o futuro, geralmente é porque o presente ainda não bate as metas do trimestre. O crescimento existe, é fato, mas crescimento contra base zero não é milagre, é aritmética. E aritmética não sustenta cotação de trilhão de dólares indefinidamente.

A bolha vai estourar, como toda bolha estoura, e quando estourar vai ter o mesmo coro habitual de gente surpresa fingindo que ninguém poderia ter previsto. Alguém sempre prevê. Alguém sempre avisa. Só que na hora do ciclo de crédito artificial nenhum investidor quer ouvir a voz do sujeito chato lembrando que árvores não crescem até o céu e que toda expansão financiada por juros manipulados termina em contração dolorosa. A Goldman aplaude hoje porque cobra comissão nos dois lados: na euforia da subida e no desespero da queda. O contribuinte, esse coitado, aplaude sem saber que já pagou o ingresso e ainda vai pagar a limpeza do teatro depois do incêndio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.